psicanálise https://minasi.com.br Alcançando a integralidade através de terapia holística. Transforme sua vida através de aconselhamento personalizado e treinamento motivacional. Tue, 01 Apr 2025 21:24:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://i0.wp.com/minasi.com.br/wp-content/uploads/2024/09/cropped-MeuEuMelhor.webp?fit=32%2C32&ssl=1 psicanálise https://minasi.com.br 32 32 103183256 A cura pela relação – Antífon https://minasi.com.br/a-cura-pela-relacao-antifon/ https://minasi.com.br/a-cura-pela-relacao-antifon/#respond Wed, 13 Sep 2023 14:18:00 +0000 https://minasi.com.br/?p=3163

Antífon foi um filósofo grego que viveu supostamente no século quarto antes de cristo. Inimigo de Platão, incluído na ignóbil categoria de pré-socrático, foi um sofista, mestre da retórica e da persuasão. Atomista – corrente filosófica precursora do materialismo atual – ele é o pai fundador da psicanálise. Embora pelo que eu saiba, nos escritos de Freud não haja nenhuma citação a ele, é inegável seu paternalismo. Vejamos.

Como todo atomista, Antífon estava convencido de que tudo que existia era átomos em movimento. Toda a matéria era constituída por eles – unidade mínima e indivisível de real. Inclusive o corpo e a alma. O pensamento, que é uma atividade da alma, também nada mais é que átomos em movimentos. Ora, se tudo é átomos em movimento, não há diferença – no meu caso – entre defecar e pensar…

Bem, continuando, a felicidade consistia em uma vida plena de harmonia, de paz, sossego e tranquilidade. Para se chegar a esse estado era preciso que o pensamento se livrasse de suas contradições, de seus conflitos internos, de suas perturbações. O papel da alma seria evitar esse combate que muitas vezes travamos dentro de nós. Ora querido leitor, diga, você nunca passou por isso? Desejo mas não posso, quero mas não é meu, ardo de paixão, alguém chegou primeiro, a angústia de decidir entre a diversão e o repouso…Quando se vive nesse fluxo de frustrações, de castrações, de desejos enterrados e jamais alcançáveis, o corpo é quem sofre. Ficamos tristes, doentes e às vezes até morremos. Por que?

Para Antífon, alma e corpo eram arranjos atômicos. Os átomos do pensamento se arranjavam de duas formas: alguns na parte iluminada da alma, outros na parte escura. A parte iluminada é aquela que nos permite flagrar esses pensamentos – não era o termo de Antífon, mas é inegável a semelhança com a consciência. E a parte escura, aquela onde habitavam os pensamentos que não temos consciência. Ele afirmava que: 1) o sofrimento do homem advém da alma. 2) especificamente da parte obscurecida.

Ele então abre na cidade de Corinto, na Grécia, uma espécie de hospital para curar a alma das pessoas. Não havia sombra de dúvidas de que esta podia ser acessada e esse acesso se dava por meio da linguagem, do discurso, da fala. Na primeira parte do tratamento, Antífon deixava o paciente falar, sem roteiro prévio, livremente, o que viesse à cabeça dele. Depois iniciava uma espécie de terapia verbal para curá-lo. Falando, o paciente moveria os átomos da parte escurecida da alma e os levaria a parte iluminada. A linguagem cria representações – isto é, põe no lugar de uma coisa ausente, outra coisa – permitindo a identificação dos pensamentos causadores do sofrimento e sua cura. Outro artifício, pasmem, era a interpretação dos sonhos. Não que o sonho tivesse uma verdade em si mesmo, mas, regido por uma rede de causalidades, e que adquiria significado a partir da interpretação de Antífon. É interessante notar que os sofistas eram exímios mestres da oratória e do convencimento, habilidades essas que certamente facilitaram muito o trabalho dele.

Como todo sofista, Antífon foi execrado e condenado ao limbo do esquecimento pela filosofia oficial dominante. Seu único escrito, A arte de combater a tristeza, desapareceu e o pouco que sabe sobre sua biografia chegou-nos através de historiadores como Diógenes Laércio. No entanto, suas ideias permanecem curiosíssimas, para além da Contra-história da Filosofia.

Fonte: ANTÍFON E O HOSPITAL DA ALMA, de Fabio Ximenes

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Mecanismos de defesa no Eneagrama https://minasi.com.br/mecanismos-de-defesa-no-eneagrama/ https://minasi.com.br/mecanismos-de-defesa-no-eneagrama/#respond Thu, 16 Mar 2023 20:42:33 +0000 https://minasi.com.br/?p=3054

Quando você está em uma situação incerta ou abaixo do ideal, como você reage? Você fica frustrado e na defensiva ou retraído e isolado? Talvez você negue totalmente suas emoções e dê desculpas por seu comportamento. Ou talvez você não tenha certeza de sua reação, com a qual não estaria sozinho – a maioria desses mecanismos de defesa vive profundamente em nosso subconsciente. 

As pessoas usam mecanismos de defesa como forma de evitar emoções difíceis, pensamentos ou partes de si mesmas que consideram inaceitáveis. Embora nem todos os mecanismos de defesa sejam “ruins” per se, eles podem limitar seu crescimento e acesso à totalidade de quem você é. Ao entender como eles operam em sua vida, você pode enfrentar sua sombra e, como resultado, ter mais controle sobre suas reações.

Dado que o Eneagrama ajuda a desfazer nossas estruturas de ego, cujos mecanismos de defesa nos mantêm presos, é uma ferramenta maravilhosa para cultivar a consciência de seus padrões de defesa.

Específico para cada tipo é um medo central que os limita. Cada tipo também pertence a um Centro de Inteligência com uma emoção comum – medo para os tipos mentais, vergonha para os tipos emocionais e raiva para os tipos instintivos. Embora os humanos sejam seres complexos e usem uma variedade de defesas, cada tipo tende a se inclinar para uma defesa primária, dada a forma como sua emoção comum e medo central são expressos. É então usado como uma estratégia de enfrentamento para minimizar ansiedade, raiva ou tristeza indesejadas.

Descubra o mecanismo de defesa associado ao seu tipo abaixo, bem como uma estratégia de como você pode redirecionar esses padrões para viver em sua essência. 

TIPO UM, O REFORMADOR: FORMAÇÃO REATIVA

Os tipo UM trabalham para evitar a raiva, que consideram “errada” ou “ruim”, por meio da formação reativa. Isso significa agir exatamente da maneira oposta à qual eles pensam ou sentem. Por exemplo, se eles acham que seu novo colega de trabalho é uma ameaça, em vez de questioná-lo ou não gostar dele, eles se esforçam para ser gentis com ele. Esta é a tentativa do UM de manter sua raiva e ansiedade sob controle. Alguns têm um forte crítico interno que os repreende por pensamentos, sentimentos ou ações que vão contra o que eles pensam que “deveriam” ser. No entanto, quando não estão cientes dessa defesa, eles podem internalizar ainda mais a raiva e se tornar reativos e críticos quando ela finalmente vier à tona.

Como trabalhar através da formação reativa:

  • Processo verbal – quando você fala sobre algo, pode entender melhor suas reações. Aviso: Você está se contradizendo, passando de elogios para críticas sobre alguma coisa?
  • Verifique seu corpo – como um tipo instintivo, ligado ao corpo, você armazena muita tensão lá. Você está percebendo ombros tensos, mandíbula cerrada ou um buraco no estômago? Use esses sinais como um convite para explorar como você realmente se sente.
  • Faça as pazes com seu crítico interno – se você perceber que está exagerando, explore todas as emoções subjacentes que estão impulsionando esses pensamentos.

TIPO DOIS, O PRESTATIVO: REPRESSÃO

Os tipos Dois trabalham para manter sua imagem de serem úteis por meio da repressão de suas necessidades e sentimentos pessoais. Isso pode ser extremamente difícil de reconhecer, pois é um bloqueio inconsciente de emoções, desejos, medos e necessidades de entrar em sua consciência. Seu cérebro consciente decide que é mais fácil “esquecer” essas coisas completamente para que você não pareça carente – mas o problema é que você realmente não esquece. Você se apega aos dados e expressa sua ansiedade buscando segurança e validação de outras pessoas, em vez de explorar o que realmente precisa. 

Como trabalhar através da repressão:

  • Faça check-ins diários consigo mesmo. Pergunte a si mesmo do que você precisa mais, não menos. Se nada vier à sua mente, continue se perguntando. Entre em sintonia com seu corpo e veja se consegue captar alguma sugestão. 
  • Reserve um tempo sozinho em sua agenda pelo menos uma vez por semana para processar seus pensamentos e emoções longe de todos os outros
  • Observe quando você está precisando de mais segurança e o que isso pode estar lhe dizendo. Na mesma nota, onde você pode estar ficando mais de pavio curto e reativo? Ambos são indicadores de um desejo não satisfeito.

TIPO TRÊS, O EMPREENDEDOR: IDENTIFICAÇÃO 

Os Tipos Três querem manter uma imagem exemplar de sucesso. Quando sentem que isso é ameaçado, inconscientemente adotam as características ou atributos de alguém que admiram em suas próprias personalidades. Isso se chama identificação. Um exemplo de como isso pode acontecer é um TIPO TRÊS que está lutando para começar a fazer amizade com alguém que considera bem-sucedido e modelar seu comportamento em seu próprio negócio – muitas vezes, sem perceber. Isso porque pode ser muito doloroso para Três lidar com a rejeição que eles podem enfrentar por serem autenticamente eles mesmos. No entanto, se não estiverem cientes, podem continuar mudando de identidade e personalidade sem nunca descobrir o poder de seu verdadeiro eu.

Como trabalhar através da identificação:

  • Observe como seu medo do fracasso influencia suas decisões, comportamentos e pensamentos. Use isso como uma oportunidade para verificar sentimentos mais profundos. 
  • Pare de comemorar o que você faz e, em vez disso, celebre quem você é fora de suas conquistas. Explore seus valores, ideais e outras áreas de interesse para fundamentar seu senso de valor próprio.
  • Respiração profunda – observe sua energia motriz para entrar em ação e permita-se desacelerar, respirar e observar antes de seguir em frente. Afirme a si mesmo que você está exatamente onde precisa estar.

TIPO QUATRO, O INDIVIDUALISTA: INTROJEÇÃO

Os Tipos Quatros evitam a rotina e o comum por meio da introjeção, que é querer manter um senso único de si mesmo. Este é um mecanismo de defesa contra-intuitivo em que você internaliza o feedback negativo e absorve as crenças de alguém no poder. Por exemplo, se um pai o critica por uma decisão pessoal que você tomou, você leva isso a sério, pensa que fez a escolha errada e se culpa. Ao mesmo tempo, os dados positivos são rejeitados. Isso o mantém preso no padrão Quatro de acreditar que algo dentro de você está faltando ou é deficiente. É mais fácil para você lidar com o dano causado a si mesmo do que enfrentar a rejeição ou a situação em questão. 

Como trabalhar através da introjeção:

  • Desenvolva um hábito positivo de conversa interna. Isso aumenta seu senso de valor próprio e também pode facilitar a lidar com sentimentos dolorosos.
  • Observe como você tende a se culpar e se concentrar nas partes “danificadas” de si mesmo. Comece a comemorar seu progresso, vitórias e partes incríveis de si mesmo que o tornam “você”.
  • Quando estiver sobrecarregado com feedback ou emoções negativas, tente uma prática de respiração onde possa observar e abrir espaço para seus sentimentos. Reserve um momento para realmente senti-los e, em seguida, deixe-os ir a cada expiração, sabendo que eles não definem você.

TIPO CINCO, O OBSERVADOR: ISOLAMENTO

Os Tipos Cinco usam o isolamento como uma forma de proteger seus recursos internos e evitar se sentirem esgotados. Isso pode estar se isolando fisicamente ou se retirando mentalmente de seu mundo emocional. Compartimentando seus pensamentos de seus sentimentos, seus sentimentos de seus somáticos e assim por diante, eles permanecem em suas cabeças e adquirem conhecimento como uma forma de sentir segurança e auto-estima. No entanto, isso também pode impedir que os Tipos Cinco desenvolvam a conexão e o envolvimento de que precisam com os outros, bem como com todo o seu eu.

Como trabalhar no isolamento:

  • Observe quando você está se afastando com mais frequência, física ou emocionalmente, e identifique seus gatilhos. Existe algo mais enraizado que você precisa explorar?
  • Saia da sua cabeça e entre no seu corpo com movimentos diários – pode ser tão simples quanto dar um passeio onde você se concentra na respiração e estar no momento presente
  • Conecte-se com outras pessoas – fale sobre o que você está sentindo com alguém de confiança ou verifique seus entes queridos com mais regularidade. Isso pode parecer contra-intuitivo, mas você descobrirá uma abundância de energia quando se envolver (claro, você pode e deve reservar um tempo para recarregar depois!).

TIPO SEIS, O LEGALISTA: PROJEÇÃO

O oposto da introjeção, o Tipo Seis usa a projeção como forma de evitar a rejeição e manter sua imagem de leal. Este é o lançamento de seus próprios pensamentos, emoções, comportamentos, inseguranças ou motivações para outras pessoas. Embora isso possa ser positivo ou negativo, é uma maneira inconsciente de Seis lidar com sua ansiedade, criando uma sensação de certeza e minimizando situações potencialmente ameaçadoras. Um exemplo disso é ir a uma festa e não conhecer ninguém. Você acha que todo mundo está criticando você por estar sozinho, quando na verdade você está projetando sua própria insegurança sobre isso vindo de outras pessoas. O irônico é que, embora a projeção seja uma defesa contra a ansiedade difusa, ela pode realmente aumentar os níveis de ansiedade quando a mente se torna hiperativa com possibilidades e situações que podem nem ser verdadeiras. 

Como trabalhar através da projeção:

  • Observe como a ansiedade se sente em sua mente e corpo. Sua cabeça gira e seu coração dispara? Reconhecer seus gatilhos pode ajudar a minimizar possíveis padrões de projeção.
  • Entenda a raiz da sua ansiedade. Dúvida e preocupação são emoções familiares, mas de onde elas realmente vêm? É frustração, tristeza ou outra coisa que você precisa explorar?
  • Definir limites. Muitas vezes você se sente obrigado a fazer tudo, o que pode gerar ansiedade. Proteger seu espaço, tempo e energia pode diminuir sua reatividade e níveis de estresse.

TIPO SETE, O ENTUSIASTA: RACIONALIZAÇÃO

Os Tipos Sete são otimistas, otimistas e querem manter sua disposição ensolarada. Caso isso seja ameaçado, eles usam a racionalização para evitar lidar com a dor. Essa é a tendência de explicar ou justificar seus pensamentos, sentimentos e comportamentos inaceitáveis ​​como forma de evitar suas verdadeiras emoções. Como o Sete deseja projetar que tudo está bem e bom, eles usam a racionalização como uma reformulação positiva das situações. Por exemplo, digamos que eles estão atrasados ​​para uma reunião importante. Em vez de tomar posse, um Sete pode justificar seu comportamento explicando que teve uma nova ideia ainda melhor do que a original. A racionalização os mantém presos em suas cabeças, evitando sentimentos de ansiedade, tristeza, raiva, culpa ou desconforto.

Como trabalhar através da racionalização:

  • Observe sua tendência de reformular as situações sob uma luz positiva – claro, não é uma coisa ruim ver frestas de esperança, mas isso também pode ser uma indicação de que há algo enterrado sob a superfície.
  • Saia da cabeça e entre no corpo com caminhadas diárias, nas quais você se concentra em seu estado interno e não em estímulos externos. Esteja ciente de quais emoções surgem e reserve um tempo para explorá-las!
  • Fique presente – você tende a confiar no planejamento futuro como escapismo, mas ficar presente permite que você examine seus pensamentos e sentimentos para que possa se sentir contente como está.

TIPO OITO, O CONFRONTADOR: NEGAÇÃO

Os Tipos Oito querem ser vistos como fortes, então eles usam a negação como uma forma de evitar a vulnerabilidade. Essa é uma forma inconsciente de lidar com a ansiedade ou a dor, na qual, em vez de vivenciar uma situação, você se recusa a reconhecê-la por completo – e, o mais importante, os intensos pensamentos e sentimentos que ela traz. Digamos que um Oito brigue com um amigo próximo. Em vez de confrontar a nocividade disso, eles podem negar a dor que é então expressa por meio da raiva, da expansividade e de fazer outras coisas para se manter “ocupado”. Os Tipos Oito são muito cautelosos e não confiam facilmente como forma de evitar se machucar. Ao negar a realidade de uma situação, ajuda a minimizar a gravidade dela ou mesmo a assumir responsabilidade nela. 

Como trabalhar através da negação:

  • Observe como quanto mais você aumenta a energia instintiva do seu corpo, mais você se distancia de suas emoções. Use essa consciência como um sinal para verificar o que você está sentindo por trás da raiva.
  • Reformule a maneira como você vê a vulnerabilidade – e se você visse a exibição de emoções como uma força, não uma fraqueza?
  • Esteja ciente de como você pode externar a culpa, seja ela dirigida a outras pessoas ou algo fora de seu controle. Pare, respire e considere se você está evitando a raiz de alguma coisa. 
  • Explore seus medos – você pode ter medo de enfrentar um problema e nem mesmo saber disso, e é por isso que pode ajudar a reconhecer o medo em primeiro lugar.

TIPO NOVE, O PACIFICADOR: NARCOTIZAÇÃO 

Noves querem manter um senso de equilíbrio interno, usando narcotização para lidar com situações estressantes. Este é o ato de “entorpecer” com atividades rítmicas familiares como forma de evitar sentir dor ou ansiedade. Pense em alguém tendo problemas com limites de colegas de quarto, por exemplo. Em vez de abordar o assunto diretamente, um Nove pode passar mais tempo com outros amigos ou escolher um novo hobby para se manter ocupado. Qualquer atividade habitual, seja trabalho, tarefas domésticas, comida e bebida ou entretenimento, permite que Noves “adormeçam sozinhos”. É evitar o conflito – interno ou externo – que faz com que Noves percam a conexão com suas identidades. 

Como trabalhar através da narcotização:

  • Observe quando e com que frequência você recorre a atividades rítmicas para desabafar e explore o que pode estar evitando.
  • Fique à vontade com sua raiva – pode ser um caminho poderoso para entender seus verdadeiros desejos e necessidades, explorando emoções mais profundas. 
  • Pratique tomar uma posição e afirmar-se com mais regularidade. Isso pode ser pequenas decisões diárias ou resolver um conflito. Adquirir o hábito de falar abertamente ajuda você a se conectar mais consigo mesmo e evitar a evasão.

FONTE: TRUITY

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Tratar corpo, mente e energia: um olhar somatopsicodinâmico https://minasi.com.br/somatopsicodinamica/ https://minasi.com.br/somatopsicodinamica/#respond Wed, 04 Dec 2019 16:44:11 +0000 https://minasi.com.br/?p=1832

Wilhelm Reich é considerado o pai da Psicologia Corporal, da qual faz parte todas as terapias de base psico-corporais, um título que a ele foi conferido por mérito. Desde sua entrada na psicanálise, em 1920 até seu falecimento, em 1958, Reich sempre se dedicou a relacionar o conflito psíquico ao corpo e à energia. Esse tripé mente-corpo-energia foram, portanto, a marca de todo seu trabalho.

Wilhelm Reich – o pai da Psicologia Corporal

Reich vê o ser humano como uma expressão de energia que ele chamou de orgônio, cuja identidade se expressa por meio da interação mente-corpo. Considera o indivíduo sadio aquele que alcançou a maturidade do caráter genital, Fisiologia Energética e Mapeamento Emocional do Corpo Humano segundo a Medicina Tradicional Chinesa e a Psicologia Corporal, cuja carga energética circula livremente pelo corpo, sem obstáculos.

Dessa forma, em termos de saúde física e emocional, qualquer distúrbio na expressão do livre fluxo do movimento dessa energia, responderá pela formação de uma doença, seja ela física ou psicológica. Da mesma forma, qualquer alteração somática e/ou psicológica nos remeterá à alteração do fluxo energético natural.

Desde a década de 20 Reich já vinha inserindo o corpo em seu trabalho clínico dentro do tratamento psicanalítico. Criou sua primeira técnica de trabalho à qual chamou de Análise do Caráter onde demonstrou que o corpo fala e expressa por meio do caráter o temperamento e a personalidade da pessoa. E a partir dessa compreensão, da leitura corporal do caráter que se faz para conhecer a personalidade da pessoa é que Reich passou a tratar seus pacientes fora do divã, sendo o primeiro psicanalista a modificar a técnica da psicanálise, cujo método tradicional empregava o uso do divã.

Distúrbio na expressão do livre fluxo do movimento da energia, responderá pela formação de uma doença, seja ela física ou psicológica.

Volpi.

Na década de 30, os trabalhos de Reich avançaram ainda mais para essa questão mente-corpo quando identificou a couraça muscular, contração da musculatura decorrente de conflitos emocionais. A couraça, portanto, nada mais é do que a neurose congelada no corpo. Isso é o que se conhece por psicossomática, quando um conflito psíquico decorrente de vários fatores, comprometem o corpo gerando uma tensão como por exemplo, um torcicolo, uma alergia ou até mesmo um câncer.

Com a descoberta da couraça muscular, Reich amplia o nome da técnica da Análise do Caráter para Vegetoterapia caracteroanalítica, incluindo em um só conceito os trabalhos sobre a mente e o corpo. Isso levou-o a perceber que o corpo, em sua linguagem emocional, quando encouraçado retem sua energia em partes específicas, às quais ele chamou de anéis ou segmentos: 

  1. Ocular – corresponde ao sistema nervoso, pele, olhos, ouvido e nariz. 
  2. Oral – corresponde à boca, língua, lábios
  3. Cervical – corresponde ao pescoço e glândula tireoide
  4. Torácico – corresponde ao peito (pulmão e coração)
  5. Diafragmático – corresponde ao diafragma, estômago, fígado, rins, pâncreas e baço.
  6. Abdominal – corresponde ao intestino delgado e intestino grosso
  7. Pélvico – corresponde ao aparelho reprodutor

Alterações do movimento energético, nas fases evolutivas do desenvolvimento somato-psíquico pelas quais o ser humano passa ao longo de sua vida, manifestam-se como bloqueio da energia em um desses segmentos ou anéis, provocando uma estagnação dessa energia na região mais enfraquecida do corpo, respondendo dessa forma pela formação de uma doença que compromete tanto o corpo, como a mente.

Portanto, a doença irá se manifestação naquela região (anel ou segmento) que estiver encouraçado. Com base nesse pensamento, podemos afirmar que o corpo expressa o que a mente sente e a mente expressa o que o corpo sente, ligados sempre pela alteração de um movimento energético.

O primeiro segmento (ocular), é bloqueado na gestação, parto e primeiros dias de vida, em função do estresse do medo. Ameaças de aborto, drogas e outros problemas da gestação, parto prematuro, fórceps, ausência da mãe nos primeiros dez dias de vida, são alguns dos fatores que contribuem para o bloqueio energético desse segmento.  Portanto, esse estresse, que chamaremos de primário, será marcado como uma predisposição a esse bebê, quando na presença de um estresse posterior, que chamaremos de secundário, a desenvolver doenças na parte do corpo correspondente (sistema nervoso, olhos, ouvido, pele, nariz). 

Um estresse (primário) sofrido durante o período de amamentação irá comprometer o segundo segmento (oral) e propiciará a criança com uma predisposição a desenvolver doenças ligadas à boca (oralidade) e com isso, na presença de estresses secundários, trará a manifestação de doenças como por exemplo, o bruxismo.

E assim sucessivamente com os demais segmentos do corpo mapeados por Reich, ligados sempre a um estresse, um bloqueio energético e um traço de caráter equivalente ao bloqueio.

Na visão reichiana, o ser humano é resultante da boa ou má relação do primeiro campo energético intra-uterino que se estabelece entre a mãe e o bebê (campo fusional), relação essa que se estende para a família (campo familiar), para a sociedade (campo social) e para a natureza e o cosmos (campo cósmico). Portanto, nossa saúde física e emocional irá depender dessa relação energética em cada um desses campos, ou seja, da forma como passamos por cada um deles. E essa relação é que irá estabelecer a formação de nosso terreno biológico que se manifesta em termos qualitativos em quatro terrenos que indicam a predisposição do indivíduo a determinadas doenças.

1 – alcalino oxidado – Se nossa relação com o primeiro campo (fusional), durante o período de gestação, for perturbada, estressante, iremos comprometer a energia e por consequência a saúde física e emocional do bebê, propiciando a instauração de um terreno energético alcalino oxidado, que predispõe o indivíduo à formação de doenças ou acabam sendo um gatilho para desencadear as mesmas, ligadas ao sistema nervoso como parkinson, alguns problemas de pele, obesidade mórbida, etc.

2 – ácido oxidado – Se a perturbação ou estresse ocorrer no período da formação do bebê no segundo campo (simbiótico), teremos a instauração de um terreno energético ácido oxidado, que predispõe o indivíduo à formação de doenças como diabetes, obesidade secundária, alergias, hipertensão, etc.

3 – ácido reduzido – Se a perturbação ou estresse ocorrer no período da formação do bebê no terceiro campo (familiar), teremos a instauração de um terreno energético ácido reduzido, que predispõe o indivíduo à formação de doenças como gastrite, úlcera, angina péctoris, infarto, colites, cistites, etc.

4 – alcalino reduzido – Se a perturbação ou estresse ocorrer no período da formação do bebê no quarto campo (social), teremos a instauração de um terreno energético alcalino reduzido, que predispõe o indivíduo à formação de doenças chamadas somatopsíquicas, que são àqueles onde a pessoa sente algo em uma parte do corpo, como por exemplo uma dor no peito e acredita que está infartando, mesmo que os exames clínicos demonstrem que ela não tem nenhum problema de ordem física.

A Psicologia Corporal não encara a doença apenas no sentido psicossomático (mente-corpo), mas por uma deficiência energética da pulsação do organismo, em decorrência da couraça, seja a doença originada pela mente, ou pelo corpo. É um olhar somatopsicodinâmico.

Dessa forma, por meio da técnica da vegetoterapia caracteroanalítica, Reich demonstrou ser possível resgatar novamente a pulsação da região do corpo onde a doença se faz presente, encouraçada, de forma a permitir a circulação da energia e o alívio do sintoma da doença ou até mesmo sua cura.

Frederico Navarro e Ola Raknes

A pedido de Reich, a técnica da vegetoterapia foi sistematizada por Federico Navarro que criou uma forma específica, por meio de movimentos criados para esse fim (actings), flexibilizar as couraças e resgatar a pulsação energética do organismo que foi prejudicada ou interrompida pela mesma. Segundo Navarro, a couraça é uma defesa, uma armadura e a vegetoterapia não busca eliminar a couraça, mas levar o paciente a uma tomada de consciência e autogestão da mesma. A vegetoterapia é uma metodologia terapêutica que busca dissolver gradualmente a couraça e não rompê-la bruscamente como acontece em muitas outras terapias psico-corporais. Portanto, é uma proposta de tratamento, que exige um projeto terapêutico individual para cada paciente, que vai ter seu tempo de tratamento de acordo com suas couraças.

Segundo a Psicologia Corporal, para tratar de uma doença psicossomática ou somatopsíquica, temos que trabalhar com a mente e com o corpo, flexibilizando as couraças. Esse seria um trabalho completo e profundo, mas que exige paciência e persistência porque não é apenas uma consulta e sim, um tratamento. 

Saiba mais sobre a Psicologia Corporal, Análise Reichiana e Análise Bioenergética – Clique Aqui

Autoria: Prof. Dr. José Henrique Volpi 
Artigo publicado no Centro Reichiano

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A Bioenergética de Lowen https://minasi.com.br/a-bioenergetica-de-lowen/ https://minasi.com.br/a-bioenergetica-de-lowen/#respond Mon, 02 Jul 2018 21:12:34 +0000 http://minasi.com.br/?p=1360

Alexander Lowen nos deixou um rico legado, com sua clareza e profundidade na compreensão do que o corpo pode expressar e da interação dinâmica do corpo com nossos pensamentos, sentimentos e emoções.

Essas palavras citadas da autobiografia de Alexander Lowen expressam a maneira apaixonada pela qual o médico e psicoterapeuta de Nova York procurou compreender e ensinar a respeito daquilo que ele acredita ser o caminho real para a saúde, o prazer e o bem-estar: um corpo cheio de vida, vibrante, capaz de expressar emoções e sentimentos e também de relacionar-se amorosamente, dedicar-se a causas significativas, trabalhar e produzir criativamente.

Atualmente parece que o esforço de Lowen está se tornando realidade, no momento em que a tecnologia de ponta oferece uma janela para que se observe o cérebro vivo e em funcionamento.

Socorro
Distante do corpo e presos na mente.

O cérebro humano em sua complexidade e plasticidade habita um corpo que ele comanda, mas do qual depende para seu bom funcionamento. Lowen sempre pesquisou e ensinou como conseguir um corpo conectado com a cabeça, ou seja, como se sentir integrado, inteiro e bem dentro da própria pele.

Para isso desenvolveu, inicialmente com o psiquiatra John Pierrakos e mais tarde com outros colaboradores, uma série de posturas e exercícios corporais associados a expressões de emoções e sentimentos.

É sabido e aceito que emoções não plenamente sentidas e não expressas passam por um processo de negação. Esse conteúdo se torna isolado e deixa de ser percebido pela consciência, embora a carga energética, ou libido, ainda precise encontrar seu destino. Tal destino costuma ser o sistema de couraças, ou seja, contrações em diferentes sistemas do organismo, que com o passar do tempo se tornam crônicas e passam a ser percebidas como a própria identidade ou maneira de ser.

Assim, temos pessoas cronicamente distraídas, que na verdade se ausentam com frequência da realidade presente e do contato humano, pessoas de pavio curto, que não sabem ou não conseguem se apropriar e direcionar positivamente sua agressividade, outras para as quais se cunhou o termo amar demais, incapazes de se sustentar no mundo sobre as próprias pernas e lidar com frustrações, desapontamentos e situações de abandono a que a vida inevitavelmente nos submete.

Antes mesmo de se preocupar com uma análise do caráter, ou seja, do sistema de resistências do cliente que procura terapia, o terapeuta prioriza a observação de áreas congeladas ou dissociadas no corpo.

Bioenergética é Psicanálise?

Algumas pessoas tendem a ver a Análise Bioenergética como uma decorrência da Psicanálise. Seria regida pelos princípios psicanalíticos básicos, ou seja, incluiria a resistência por parte do paciente às interpretações do analista; a transferência, na qual o paciente projeta no terapeuta os sentimentos que, na realidade, teve por seus pais e a contra-transferência, sentimentos despertados no terapeuta pelo contato com o cliente.

De acordo com Lowen, esses são preceitos psicológicos válidos, que ele vivenciou pessoalmente na terapia com Reich.

“O cérebro humano em sua complexidade e plasticidade habita um corpo que ele comanda, mas do qual depende para seu bom funcionamento”.

Mas na análise energética reichiana tais reações são vistas como parte da estrutura de caráter do paciente, uma realidade tanto física quanto psicológica. Assim, tais atitudes estão associadas a tensões musculares crônicas do corpo do paciente – e também derivam delas. Nem seus sentimentos nem seu comportamento mudarão enquanto as tensões não forem significativamente resolvidas e liberadas.

Wilhelm Reich
Dr. Wilhelm Reich

A teoria política de Wilhelm Reich (que morreu na prisão, nos Estados Unidos, em 1957) já foi vista por alguns segmentos da sociedade como uma forma de terapia alternativa e associada à ideia de rebelião contra os valores vigentes. Esta percepção foi alterada a partir da década de 1990, quando os conhecimentos sobre o funcionamento emocional do corpo, da mente e da vida espiritual passaram a ser objeto de pesquisa científica.

A terapia deve ter continuidade também fora da sessão, pois o cliente deve continuar refletindo sobre o processo e realizar os exercícios propostos pelo terapeuta.

Nenhum corpo é totalmente livre de tensões. A liberação de energia no corpo pelo movimento, a recuperação da graciosidade e a sensação de estar vivo e vibrante não significam liberdade total. Libertar-se de condicionamentos antigos, motivados por perdas dolorosas, traumas, humilhações, etc. tem por objetivo a construção de novos modos de existir, de pensar e de estar no mundo.

O princípio central para o criador da Análise Bioenergética é tornar o corpo vivo – que para ele significa vibrante – e devolver-lhe a graça natural. Para isso é necessário desmanchar os congelamentos, áreas do corpo literalmente frias, pálidas, sem movimento ou sem expressão, em que o sangue e a energia circulam pouco ou muito lentamente.

Antes mesmo de se preocupar com uma análise do caráter, ou seja, do sistema de resistências do cliente que procura terapia, o terapeuta prioriza a observação de áreas congeladas ou dissociadas no corpo.

Técnicas de respiração, movimentos específicos e toques são utilizados enquanto conversa com o cliente. O objetivo é torná-lo consciente dessas áreas de seu corpo e do seu significado emocional ligado à sua história de vida.

O corpo pode revelar indícios que dão pistas para o terapeuta pesquisar, junto com o cliente, quais conteúdos inconscientes estão causando os distúrbios da personalidade. Como liberdade implica em responsabilidade, o sucesso da terapia depende do envolvimento do cliente, dentro e fora das sessões, realizando exercícios e tarefas indicados pelo terapeuta.

Lowen recomendava meia hora de exercícios por dia, prática que ele mesmo realizava com prazer enquanto sua saúde permitiu.

Em busca do grounding

Grounding
Em busca do grounding

Os pés e os olhos são as duas extremidades de contato com o mundo e conectam realidade interna e externa. Enquanto os olhos trazem a percepção do mundo externo, pés e pernas bem enraizados são importantes para organizar essas percepções e devolvê-las ao cérebro com informações sobre equilíbrio, organização espacial, segurança, confiança, viabilidade.

Em muitas pessoas a falta de vida sensível nas pernas e pés é compensada por um exagerado desenvolvimento do ego. O ego busca segurança em conquistas que encubram sua insegurança aos olhos dos outros, mas a sensação interna de não ser bom o suficiente perdura.

A pessoa sofisticada pensa com o cérebro, que funciona como um computador. Ela acredita que sua identidade está em suas ideias. A pessoa enraizada pensa com o corpo todo, seus sentimentos e sensações participam fortemente de todos os pensamentos, escolhas e ações.

A dissociação entre os sentimentos e o corpo, por sua vez, conduz, por exemplo, à indiferença diante de sinais visíveis de miséria ou da destruição do meio ambiente. Segundo Alexander Lowen, seres desenraizados vivenciam como opostos alguns valores essenciais, valores estes que coexistem na personalidade na qual ego e self funcionam integrados.

Amor e sexualidade

Reich disse que ninguém trapaceia a natureza. Se somos parte dela, enganá-la equivale a enganar a nós próprios. A busca proposta pela terapia é tornar o indivíduo capaz de ser cada vez mais verdadeiro consigo mesmo. Nesse processo, uma das descobertas é que o ser humano almeja, sobretudo, o amor, não o poder, embora possa usar o poder para alcançar o amor.

Lowen entende que se criou um constrangimento no indivíduo moderno em relação ao sexo.

Desde que o código da moral vitoriana caiu por terra, homens e mulheres podem se entregar livremente aos desejos sexuais. Poder-seia pensar que a vida sexual tenha então se tornado mais prazerosa e gratificante. Hoje, porém, há mais pendências sexuais do que nunca.

A ausência de limites e códigos morais para o comportamento sexual criou um problema nefasto, pois não há liberdade sem controle, sem limites. Também não há transcendência sem um ego que crie um self. O problema do sexo é que sem amor ele tem pouco sentido. Sem este componente essencial, o sexo proporciona somente algum alívio, mas não realização.

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Hoje, há mais pendências sexuais do que nunca.

Também a contração crônica, o desenraizamento e as cisões entre pensamento, sentimento e sexualidade dificultam a experiência plena do amor sexual.

“Reich disse que ninguém trapaceia a natureza, pois enganá-la equivale a enganar a nós próprios”.

Para Reich, uma das descobertas prováveis em terapia é que o ser humano almeja, sobretudo, o amor, não o poder, embora possa usar o poder para alcançar o amor.

A Análise Bioenergética trabalha com o modelo de fluxo energético num movimento pendular ao longo do corpo. Pelas costas fluem principalmente os sentimentos da agressividade, entendendo-se agressividade como uma força positiva para buscar o que se necessita. Pela frente do corpo fluem a excitação e o desejo de contato, os sentimentos ternos.

No processo terapêutico buscam-se integrar as duas correntes, afetiva e agressiva, pois a agressividade é o componente de força adulta do encontro afetivo-sexual. Um coração aberto para o amor habita um peito capaz de respirar livremente.

Os olhos, assim como os pés, formam as extremidades de contato com o mundo e ajudam a conectar as realidades interna e externa.

Autora: Odila Weigand é psicóloga, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, trainer internacional do International Institute for Bioenergetic Analysis, do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo e do Ligare, em Americana (SP). É autora do livro Grounding e Autonomia (Person) e de diversos artigos publicados. Fonte: Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo.

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Wilhelm Reich – o homem revolucionário https://minasi.com.br/wilhelm-reich-o-homem-revolucionario/ https://minasi.com.br/wilhelm-reich-o-homem-revolucionario/#respond Wed, 25 Apr 2018 18:18:22 +0000 http://minasi.com.br/?p=1322
Esse foi o maior incidente de perseguição científica da história norte-americana.

Em julho de 1947, o Dr. Wilhelm Reich — um psicanalista brilhante, porém, problemático que já tinha sido o estudante mais promissor de Freud; que já havia enraivecido os nazistas e os stalinistas bem como as comunidades psicanalítica, médica e científica; que sobreviveu a duas guerras mundiais e fugiu para Nova York — estava morrendo em sua cela numa prisão em Lewisberg, Pensilvânia, acusado pelo governo de ser uma fraude médica engajada num “golpe sexual”.

Esse “golpe” um dia seria chamado de “revolução sexual”. Mas ainda era 1947 nos Estados Unidos — um país que não estava nem pronto para a psicanálise, uma ciência ainda nascente que a Harper’s e o The New Republic categorizaram, juntamente com as teorias de Reich, como sendo não melhores do que a astrologia (a Harper’s tinha decidido que Reich era o líder de um “novo culto de sexo e anarquia”).

Se o público norte-americano não estava pronto para o Dr. Freud, imagine para o Dr. Reich — um homem que pesquisava a força energética do orgasmo em si em seu instituto Orgonon, próximo de Rangely, Maine.

Reich tinha levado as teorias de Freud mais longe. Longe demais, de acordo com o FDA (a Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos). Começando com a conexão de Freud entre repressão sexual e neurose, Reich teorizou que era a inabilidade física de se render ao orgasmo o que gerava a neurose e, por fim, levava as pessoas ao fascismo e ao autoritarismo. Reich migrou da cura de Freud pela fala para algo chamado análise do caráter, uma terapia criada para ajudar seus pacientes a superarem bloqueios físicos e respiratórios que os impediam de experienciar o prazer. Finalmente, ele afirmou que o orgasmo era uma expressão do orgônio, uma força cheia de alegria da própria vida. Com aparelhos do tamanho de cabines telefônicas chamados acumuladores de orgônio, ele aproveitaria essa força para curar a neurose, doenças e até para afetar o clima e ajudar a agricultura.

Por causa dessas linhas de pesquisa, o FDA exigiu que Reich comparecesse ao tribunal para defender a si mesmo em 1954. Ele se recusou, afirmando que alegações da verdade científica deveriam ser resolvidas pela experiência, não num tribunal. O tribunal respondeu emitindo uma liminar contra a venda e transporte de seus aparelhos através das fronteiras dos estados e passou a queimar sistematicamente seus livros e periódicos. Não apenas o trabalho escrito de Reich, mas qualquer material escrito que contivessea palavra “orgônio” deveria ser destruído (paranoico e encurralado, Reich recusou a ajuda oferecida pela ACLU, a União Americana pelas Liberdades Civis, acreditando que a organização estava cheia de comunistas subversivos). Agentes da FDA também destruíram seus aparelhos e laboratório com machados — mas isso não foi tudo. A FDA levaria a perseguição da psicanálise austríaca muito mais longe.

O que havia nesse homem e em suas teorias que evocou o ódio de quase toda facção política e científica de sua época? O que havia em sua “revolução sexual” que valeu um arquivo do FBI de 789 páginas sobre Wilhelm Reich? O que provocou uma campanha sistemática de ataques que dificilmente faria pensar na América sã e racional que tinha acabado de vencer uma guerra contra os nazistas queimadores de livros — ataques que fariam lembrar a Inquisição, a morte de Giordano Bruno na fogueira ou o final de Frankenstein, com aldeões enraivecidos segurando tochas e forcados queimando o castelo do cientista louco?

O Combate Sexual da Juventude

Reich nasceu em 24 de março de 1897, numa fazenda na Galícia, Áustria-Hungria, no que hoje é a Ucrânia. Ele abraçou sua sexualidade bem cedo, tentando, sem sucesso, fazer sexo com a babá de seu irmão quando tinha quatro anos e meio, e finalmente conseguindo com a cozinheira da família aos 11. Aos 12, Reich descobriu sua mãe fazendo sexo com um de seus tutores. Quando ele contou ao pai, o homem espancou repetidamente a mãe de Reich até que ela cometesse suicídio. Reich se culpou pelo caso.

Dos 15 aos 17, ele fez diversas visitas a bordéis e registraria fantasias sexualizadas com sua mãe em seu diário aos 22 anos (naquele mesmo ano, ele conheceu Sigmund Freud, cujas teorias do complexo de Édipo podem ter influenciado essa confissão). Lore Reich Rubin, a segunda filha de Reich, diria mais tarde ao jornalista Christopher Turner que acreditava que Reich tinha sido vítima de abuso sexual na infância.

Enviado para o Exército durante a Primeira Guerra Mundial, Reich viu “a desumanidade do homem para com o homem” em primeira mão na frente italiana. Depois disso, ele estudou medicina na Universidade de Viena, onde ficou insatisfeito com o que considerava uma abordagem “mecanicista” da vida na dissecação fria de cadáveres por seus colegas estudantes. Assim, ele começou uma busca pela energia criativa que sentia como sendo subjacente à vida. Em1919, ele conheceu Sigmund Freud. Bem recebido no movimento psicanalítico em expansão, Reich recebeu a permissão para começar a atender pacientes aos 22 anos — ele logo ficaria marcado como o pupilo estrela de Freud, alguém talvez destinado à liderança.

Freud tinha identificado a raiz da neurose na sexualidade reprimida e a força motora da vida como sendo a libido — afirmando que “nenhuma neurose é possível com um vita sexualis normal”. Seus dois grandes estudantes, Jung e Reich, deveriam levar sua teoria mais longe. Entretanto, enquanto Jung abordaria o caminho da mitologia, simbolismo e do oculto, Reich se aventuraria numa direção completamente diferente: o corpo.

Para além do reino da repressão psíquica, Reich postulou que o trauma também era reprimido fisicamente. Uma criança que sofreu abuso, por exemplo, e que não possuía o desenvolvimento emocional para processar tal evento, iria “armazenar” o trauma como tensão muscular, o que poderia causar dores crônicas mais tarde na vida e formar o físico e o caráter geral do indivíduo, sua abordagem para a existência. Reich acreditava que o caráter fascista era criado por um trauma inicial e que uma atitude repressiva ou abusiva para com a sexualidade se manifestava como uma “rigidez” física e emocional na vida adulta — Reich se preocupava com nada menos do que a erradicação do fascismo e do autoritarismo.

A abordagem de Reich da terapia, portanto, iria além da simples cura pela fala: ele também usaria massagens profundas e frequentemente dolorosas nas áreas de tensão muscular do paciente para liberar o trauma enterrado e trabalhar com os pacientes para aprofundar sua respiração e expressar suas emoções ignoradas, até mesmo sua raiva reprimida. Foi essa abordagem, combinada à atitude pró-sexualidade de Reich, que escandalizou o público e colocou sua carreira num foguete para lugar nenhum. (Embora bastante conservador em algumas áreas — ele se opunha à pornografia e à homossexualidade, por exemplo — Reich teve casos com várias pacientes no começo de sua carreira, ao final das terapias. Isso não era incomum nos primórdios da psicanálise; mesmo Freud discutiu a inevitabilidade dos casos amorosos. Em sua busca por liberar a energia da vida, Reich mais tarde receberia pacientes parcialmente ou totalmente despidos, quebrando totalmente a neutralidade analítica).

Reich logo descobriu que trabalhar os bloqueios tanto na psique quanto na musculatura poderia criar uma imensa liberação emocional em seus pacientes, desencadeando inclusive sentimentos de exaltação física e êxtase (Reich chamou essas sensações físicas de “correntes orgonóticas”). Conforme sua prática continuou, ele veio a teorizar que, abaixo das camadas de repressão muscular, havia o que ele chamava de “potência orgásmica” e que era a repressão muscular que blindava seus pacientes da total liberação orgásmica — uma experiência completa de vida.

Diagrama da auto-regulação

Em 1948, ele codificaria sua teoria em sua maior obra, A Função do Orgasmo, na qual afirmava que o orgasmo existia não somente como função reprodutiva, mas como uma maneira de o corpo regular a tensão e atingir a liberação emocional. A total liberação orgásmica — na qual o indivíduo não procura reprimir a função de forma física e psicológica — era vista por Reich como uma chave para a saúde mental. Como ele escreveu no livro: “Doenças psíquicas são o resultado de distúrbios na capacidade natural de amar” (Reich se casaria e se divorciaria três vezes — com a psiquiatra e ex-paciente Annie Pink, de 1924 a 1934, com quem ele teve duas filhas; com a dançarina Elsa Lindenberg, com quem ele teve um casamento aberto de 1933 até 1939, e com Ilse Ollendorff, com quem teve um filho, Peter, de 1946 a 1951. Paradoxalmente, Reich é lembrado como sendo cruel, infiel e ciumento em seus relacionamentos).

Freud era ambivalente sobre as ideias de seu discípulo. Em 1926, ele escreveu: “Não me oponho de maneira alguma à sua tentativa de resolver o problema da neurastenia explicando isso com base na ausência de primazia sexual”. No entanto, ele retirou seu apoio às teorias mais extremas de Reich dentro da comunidade psicanalítica mais ampla, talvez pensando na preservação de suas próprias vitórias culturais duramente conquistadas no campo da sexualidade. Sem o apoio de Freud, a comunidade psicanalítica logo lavou as mãos sobre o jovem analista.

Então, as coisas deram uma guinada para pior para Reich. Lutando com as reações contrárias a ele durante 1926, ele pediu para ser analisado por Freud. Seu mentor e figura paterna recusou seu pedido de ajuda. Reich ficou profundamente magoado. Logo em seguida, seu irmão morreu de tuberculose; Reich também contraiu a doença e passou um ano num sanatório em Davos, Suíça. Chocado por essa sequência de eventos, ele se tornou um radical e logo se juntou ao Partido Comunista. Testemunhando pessoalmente quando a polícia indiscriminadamente matou 84 trabalhadores e feriu 600 na Revolta de Julho de 1927, em Viena, Reich se convenceu de que havia algo muito errado com o mundo. A polícia não havia sido somente brutal, segundo ele observou, mas robótica, como se estivesse num transe — blindados.

Trabalhando nas ruas, Reich fez a conexão entre a repressão sexual com a repressão econômica que via ao redor. Ele abriu diversas clínicas em Viena, oferecendo análise, assim como educação sexual e contraceptivos para jovens da classe trabalhadora (na época, os liberais defendiam o uso de contraceptivos somente para pessoas casadas).

Reich e Annie

ELE ARGUMENTOU FORTEMENTE CONTRA A MONOGAMIA, DEFENDENDO “RELACIONAMENTOS AMOROSOS DURADOUROS” QUE NÃO ESTAVAM CODIFICADOS PELA LEI, MAS UNIDOS PELO AMOR.

Reich se mudou para Berlim em 1930, bem em tempo de testemunhar a ascensão dos nazistas – o ápice da blindagem de caráter. No entanto, apesar de continuar a desenvolver suas teorias e a escrever os comunistas também mostravam pouco interesse por seu material. Seu contrato com os Editores Psicanalíticos Internacionais foi cancelado depois que ele começou a defender a educação sexual e os contraceptivos para adolescentes em vez da abstinência – ele chegou a sugerir que a expressão sexual desmistificada para crianças podia ser crucial para criar adultos saudáveis e que suas perguntas deveriam ser respondidas de maneira franca. Em 1932, num livro chamado O Combate Sexual da Juventude, o Dr. Reich protestou contra as mensagens mistas sob as quais os adolescentes lutavam para entender sua sexualidade.

“Os jovens são contaminados por um lado por moralistas e defensores da abstinência e, por outro lado, pela literatura pornográfica”, escreveu. “Ambas as influências são extremamente perigosas, a última não menos do que a primeira.” Naquele momento, na Alemanha, as apostas eram altas, observou o psiquiatra aos 27 anos: “A miséria sexual dos jovens modernos é imensurável, mas muito disso está fora de vista, abaixo da superfície”. Seus oponentes tomaram essa declaração com o significado de que as crianças deveriam assistir o coito dos pais, apesar de Reich jamais ter defendido isso.

Ele persistiu, argumentando fortemente contra a monogamia e defendendo “relacionamentos amorosos duradouros” que não seriam codificados pela lei, mas unidos pelo amor; qualquer outra coisa levaria a um “embotamento sexual”. Ele atacou o status de dependência econômica das mulheres, que mantinha elas presas em casamentos forçados. E, o mais radical de tudo, ele sugeriu que as crianças deviam ser criadas por uma comunidade estendida, libertando-as, assim, das neuroses de seus país biológicos. (Essas atitudes eram até certo ponto influenciadas por experimentos sociais similares que ocorriam na União Soviética.)

Dr. Reich estava entrando num território tabu que poucos ousaram violar, um território que permaneceria tabu até muito depois dele. Mas suas experimentações – e, particularmente, a resposta que ele engendrou – o mudaram, para melhor ou pior. Quando ele se encontrou com Freud novamente em 1930, seu ex-mentor parecia agora diminuído. Dr. Freud, escreveu ele, era um “animal enjaulado”.

Em 1933, a postura sexual do Dr. Reich levou os nazistas a uma ação. Ele e sua amante escaparam para a Dinamarca – para serem expulsos pelo Partido Comunista Dinamarquês. Então, eles partiram para a Suécia, onde Reich foi colocado sob vigilância; depois de a polícia ver vários pacientes entrando e saindo de seu hotel, eles ficaram convencidos de que ele era um cafetão. As autoridades negaram sua permanência no país. Mais choques se seguiriam: não só seu contrato de publicação do livro Análise de Caráter tinha sido cancelado, como, em 1934, quando ele apareceu na conferência anual da Associação Internacional de Psicanálise em Lucerna, ele foi informado que tinha sido expulso no ano anterior. Comoconvidado, ele apresentou um trabalho na conferência, mas o episódio marcou o fim de seus laços com a comunidade científica predominante para sempre.

“Disseram-me que meu trabalho em psicologia de massas, que era direcionado contra a irracionalidade do fascismo, tinha me colocado numa posição demasiada exposta”, ele escreveria mais tarde. “Por isso, minha filiação […] não era mais sustentável. Quatro anos mais tarde, Freud fugiu de Viena por Londres, onde os grupos de psicanálise foram destruídos pelos fascistas […] Subsequentemente, evitei contato com meus antigos colegas. O comportamento deles não era nem melhor nem pior do que o normal em casos assim. Isso era baixo e desinteressante. Uma boa dose de banalidade é tudo o que é preciso para abafar um assunto.”

Discussão na conferência de Lucerna, agosto de 1934: Erwin Stengel, Grete Bibring, Rudolph Lowenstein e Wilhelm Reich.

“Consegui um Acumulador de Orgônio – E Isso Fez Eu me Sentir Incrível”

Foi na Noruega, onde ele se estabeleceu nos cinco anos seguintes, que o Dr. Reich desenvolveu uma nova teoria: ele passou a acreditar que o orgasmo carregava uma energia real, batizadade orgônio e expressa não somente pela resposta orgásmica, mas, na verdade, na energia vital em si. Essa energia, em sua visão, permeava a natureza e o cosmos, expressando-se em fenômenos atmosféricos como a aurora boreal. (Freud tinha postulado uma teoria semelhante em 1890, mas desistiu da ideia.) Mais tarde, o Dr. Reich afirmou que o orgônio poderia ser observado de forma objetiva e que era composto de partículas azuis chamadas bions que ele havia observado no microscópio. Essa talvez seja a teoria mais controversa de Reich – uma tentativa de mover a psicanálise para além do reino das “ciências humanas” e direcioná-la para o campo da física e da biologia. Para a comunidade de psicanálise, isso era pura heresia.

Depois de enfurecer os psicanalistas, os comunistas e os fascistas, Dr. Reich agora se preparava para enfrentar o ataque direto da comunidade científica como um todo. Cientistas noruegueses travaram uma guerra contra ele na imprensa liberal, rejeitando sua pesquisa (e se recusando a submetê-la a um estudo detalhado de controle) e buscando deportá-lo. O governo norueguês, que já tinha sido criticado por deportar Trotsky, permitiu a estadia de Reich – mas o proibiu de praticar a psicanálise.

Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, Reich, então com 36 anos, fugiu para os Estados Unidos, estabelecendo residência em Forest Hills, Queens, e realizando experiências onde injetava bions em ratos com câncer. Mas Reich continuou a ser um ímã de infortúnio. No dia 12 de dezembro de 1941, cinco dias antes do ataque a Pearl Harbor e um dia depois que a Alemanha declarou guerra aos Estados Unidos, ele foi preso pelo FBI na Ilha Ellis. Mais tarde, isso se revelou um caso de identidade trocada com um dono de livraria comunista de New Jersey também chamado Wilhelm Reich – mas o FBI só iria reconhecer o erro dois anos depois, em novembro de 1943. Pelo resto daquele mês, Reich foi deixado dormindo no chão da cela juntamente com os membros presos do Bund Germano-Americano, uma organização nazista norte-americana que Reich estava convencido que queria matá-lo.

O FBI liberou Reich depois que ele ameaçou começar uma greve de fome, mas ele continuou na “lista de figuras chave” da Unidade de Controle de Inimigos Estrangeiros e ficou sob vigilância do Estado. O incidente demonstrou a Reich que ele podia ter deixado a Europa para trás, mas que não havia escapatória da psicologia de massas do fascismo.

Reich se tornou mais comprometido do que nunca com a causa de quebrar a blindagem emocional da humanidade. Em seguida, ele começaria a projetar o que se tornaria sua maior controvérsia: uma tentativa de aproveitar e concentrar orgônio com gaiolas de Faraday adaptadas, que ele chamou de acumuladores de orgônio. Isolados com materiais orgânicos como madeira e papel, o que Reich acreditava que forçava a energia do orgônio a oscilar dentro da caixa, o acumulador, segundo ele, podia curar distúrbios mentais e físicos – potencialmente até o câncer. No dia 13 de janeiro de 1941, Reich levou o dispositivo até Albert Einstein, que o testou entusiasmadamente e notou que os acumuladores criavam um aumento de temperatura. Mas quando o assistente de Einstein, o físico polonês Leopold Infeld, sugeriu que o acumulador de orgônio estava produzindo calor simplesmente por causa do gradiente térmico da sala, já que isso era elevado do chão, Einstein rejeitou as caixas e se recusou completamente a admitir novos testes com elas. Para Reich, isso foi um eco amargo da rejeição de Freud, o desprezo de outro guardião estabelecido e potencial figura paterna.

Reich adquiriu terras em Rangely, Maine, e abriu seu instituto “Orgonon”, onde ele continuaria suas pesquisas. Além do orgônio, ele identificou uma segunda força – a DOR ou “Deadly Orgone Radiation” (“Radiação Mortal de Orgônio”), um tipo de antimatéria orgásmica presente na (e responsável pela) degradação ambiental, que ele acreditava cobrir o mundo. Ele logo passou a ver seu trabalho em oposição direta ao que o governo norte-americano tinha feito em Hiroshima e Nagasaki: ele estava numa corrida armamentista pela energia da vida, não pela energia da morte.

Foi aí que Reich começou a construir enormes armas de orgônio que ele chamava de “cloudbusters” e que, segundo ele, podiam reverter a desertificação e criar chuva. Apesar de o governo usar a tecnologia de semeadura de nuvens desde os anos 1940 para tirar água de nuvens com iodeto de prata ou gelo seco, Reich usou uma abordagem menos convencional. Sua técnica de semeadura de nuvens pretendia tirar energia “ôrgonica” diretamente da atmosfera através de uma série de canos e depositá-la no solo ou num corpo de água, como um para-raios, criando nuvens na esteira do orgônio canalizado. Fazendeiros começaram a pagar para que ele produzisse chuva para suas plantações – supostamente com sucesso, pelo menos de acordo com os seus próprios relatórios.

Durante essa época, Reich afirmou que seus experimentos com as cloudbusters tinham gerado interesse de visitantes inesperados: ele acreditava que OVNIs alienígenas, ou “alfas de energia” na terminologia de Reich, estavam atacando a terra com DOR. Reich disse ter visto várias naves alienígenas sobre o Orgonon; uma vez, segundo o analista, ele e seu filho usaram uma cloudbuster para defender a Terra numa “batalha interplanetária em larga escala” no Arizona.

A resposta do FDA aos empreendimentos de Reich foi declará-lo uma “fraude de primeira magnitude” e obter uma liminar proibindo o envio interestadual de acumuladores de orgônio e qualquer literatura relacionada. Quando um dos associados de Reich desobedeceu a liminar, contra a vontade de Reich, e transportou um acumulador através das fronteiras estaduais, Reich foi preso por desacato e sentenciado a dois anos de cadeia.

Reich sendo escoltado para a Penitenciária Federal de Lewisburg, março de 1957.

Na Prisão Federal de Lewisburg, Reich ficou conhecido entre os outros prisioneiros como o “homem da caixa de sexo”. Em novembro de 1957, aos 60 anos, ele morreu de ataque cardíaco, dias antes de ser colocado em liberdade condicional. Nenhuma publicação psiquiátrica ou científica cobriu seu falecimento. Além de alguns jornais anarquistas, seu trabalho ganhou um obituário de apenas um parágrafo na Time:

“Faleceu. Wilhelm Reich, 60 anos, psicanalista outrora famoso, depois, mais conhecido por suas teorias não ortodoxas sobre sexo e energia; de ataque cardíaco; na Penitenciária Federal de Lewisburg, Pensilvânia; onde ele cumpria uma pena de dois anos por distribuir sua invenção, o ‘acumulador de orgônio’ (violando uma liminar do FDA), um aparelho do tamanho de uma cabine telefônica que supostamente reuniria energia da atmosfera e podia curar, quando o paciente se sentava dentro dele, gripes comuns, câncer e impotência.”

Uma década depois, no meio dos anos 1960, a Time ponderou que “Dr. Wilhelm Reich talvez tenha sido um profeta”, e “Agora, às vezes, parece que toda a América é uma grande caixa de orgônio”. Mas, em 1957, o mundo pouco se importou. Em vez de testar suas teorias ou simplesmente descartá-las, a FDA queimou Reich numa grande fogueira.

Eu Ainda Sonho com Orgonon

Em sua busca por desenterrar as raízes das neuroses sexuais da humanidade, Reich desafiou quase todo o tabu da civilização ocidental, enfureceu quase toda força estabelecida da época e morreu na prisão por seus esforços. No entanto, sua influência pode ser ainda maior do que geralmente é creditado a ele.

Enquanto Reich definhava na prisão, a revolução sexual que ele tinha ajudado a iniciar estava começando a se manifestar. Elvis fez sua estreia na TV em 1956, mexendo seus quadris de uma maneira que, decididamente, irradiava orgônio, demonstrando o tipo de libertação de blindagem de caráter que Reich provavelmente queria de seus pacientes. No meio dos anos 1960, com o lançamento da pílula anticoncepcional, a revolução sexual estava em pleno andamento. (Aliás, “revolução sexual” é um termo cunhado por Reich.)

“QUANDO ENTREI NO ACUMULADOR E ME SENTEI, NOTEI UM SILÊNCIO ESPECIAL QUE, ÀS VEZES, SE SENTE NAS FLORESTAS PROFUNDAS […] MINHA PELE ARREPIOU E EXPERIMENTEI UM EFEITO AFRODISÍACO SIMILAR AO DE UMA ERVA BOA E FORTE. O ORGÔNIO É DEFINITIVAMENTE UMA FORÇA COMO A ELETRICIDADE.” – WILLIAM S. BURROUGHS

Estudantes que participavam dos protestos em Paris e Berlim em 1968 jogavam cópias do Psicologia de Massas do Fascismo de Reich nos capacetes dos policiais. Jack Kerouac e Allen Ginsberg abraçaram as teorias de Reich; William S. Burroughs investigou os acumuladores de orgônio por anos e escreveu extensivamente sobre eles em seu trabalho. Ele chegou mesmo a construir sua própria caixa acumuladora, onde ele entrava para escrever (enquanto fumava haxixe).

“Quando entrei no acumulador e me sentei, notei um silêncio especial que às vezes se experimenta nas florestas profundas, às vezes numa rua da cidade, um zumbido que é mais vibração rítmica do que um som”, escreveu ele em Junky. “Minha pele arrepiou e experimentei um efeito afrodisíaco similar ao de uma erva boa e forte. Não há dúvida, o orgônio é uma força definitiva como a eletricidade. Depois de usar o acumulador por vários dias, minha energia voltou ao normal. Comecei a comer e não consegui dormir mais de oito horas. Eu estava no período pós-cura.” Assim como fez com a ayahuasca, Burroughs tentou curar a si mesmo do vício em heroína e da síndrome de abstinência com o acumulador. (Apesar de tentar quase todas as curas para vício em heroína do planeta, Burroughs nunca conseguiu permanecer limpo por muito tempo e morreu num programa de manutenção com metadona.)

Kurt Cobain visitou William Burroughs em 1993. “Sentei na máquina de orgônio e havia viúvas negras lá dentro, ele [Burroughs] ainda tinha uma e eu estava com medo, porque tenho aracnofobia. Ele teve que matar todas as aranhas para mim.”
Saul Bellow, J.D. Salinger, Michael Foucault e Norman Mailer também desenterraram Reich; como Burroughs, Mailer construiu seus próprios acumuladores e saiu em busca de liberar a si mesmo por meio do que ele descreveu como um “orgasmo apocalíptico” – em seu ensaio “The White Negro”, Mailer fala do antiautoritário como aquele que “busca amor […] amor como a busca de um orgasmo mais apocalíptico do que aquele que o precedeu”. Mesmo Sean Connery mergulhava em orgônio em seu próprio acumulador enquanto filmava alguns de seus filmes do James Bond.O New York Times, numa crítica literária de A Psicologia de Massas do Fascismo, pediu uma reavaliação séria do trabalho do analista. Reich logo ficou tão em moda entre os intelectuais que, em 1968, Roger Vadim atormentou Jane Fonda com uma máquina do prazer criadora de orgônio em Barbarella, e Woody Allen fez uma paródia do acumulador de orgônio como o “Orgasmatron” em O Dorminhoco, de 1973. Quase uma década depois, Kate Bush e Terry Gilliam contariam a história de Reich no vídeo “Cloudbusting” de Bush, onde Donald Sutherland interpreta Reich e Bush faz o papel de seu filho Peter.
 

Clipe de “Cloudbusting” de Kate Bush, 1986, dirigido por Julian Doyle e concebido por Bush e Terry Gilliam.
 

As ideias de Reich nunca foram reavaliadas pela comunidade científica – nem pelos psicanalistas, que ainda o consideram uma mácula em sua história. Ainda assim, suas ideias terapêuticas se infiltraram numa comunidade psicanalítica mais ampla e tomaram novas formas, sob novos nomes, contribuindo para a psicologia corporal, psicologia do ego, a terapia Gestalt de Fritz Perls (que tenta tratar o paciente como um todo, não só seus sintomas individuais) e a terapia do grito primal de Janov (que, como a terapia de Reich, utiliza o grito e a vocalização para abrir a blindagem do paciente).

Em muitos aspectos, a influência de Reich pode ser detectada de modo mais flagrante na grande variedade de terapias corporais de “bem-estar” e mesmo na grande popularidade da massagem e da ioga. A ideia de Reich de que o homem era pego na “armadilha” da blindagem de seu próprio caráter encontrou um lar nos movimentos nascentes da Nova Era e do Potencial Humano.

A casa, laboratório e escola de Wilhelm Reich é agora um museu em Rangeley, Maine. A antena astrolábio (esquerda) está montada no topo do observatório para detectar Energia de Orgônio. O lago Rangeley pode ser visto abaixo. Uma das “cloudbusters” de Reich (direita), no observatório. Fotos por Michael Kassner, CLUI.

Os livros de Reich continuam sendo publicados pela Farrar, Strauss e Giroux, e o American College of Orgonomy, em Princeton, Nova Jersey, continua sua linha de pesquisa, publicando o Journal of Orgonomy, realizando palestras públicas e oferecendo aulas de sensibilização. Terapeutas reichianos, apesar de em número cada vez menor, continuam a praticar suas ideias. O mundo dos reichianos, no entanto, continua fechado, seja por falta de interesse do público ou pela mentalidade de cerco dos defensores restantes de Reich. Alguns reichianos , como James De Meo, continuam a tentar novos experimentos, mas gerando cada vez menos publicidade. Os arquivos do Dr. Reich são mantidos pela Wilhelm Reich Infant Trust no Orgonon. Seu local de descanso final está na propriedade de 175 acres de floresta. O local é aberto a visitas.

Apenas 50 anos depois da revolução sexual que Reich previu, vivemos numa sociedade hiperssexualizada – um lugar onde somos constantemente barrados pelo oposto de repressão sexual. Tudo à nossa volta parece dificilmente acumular algum orgônio – propaganda, música pop, televisão, revistas, pornografia na internet.

Mas mesmo que a humanidade do século XXI possa parecer mais sexualmente liberada, Reich provavelmente teria visto o superestímulo da mídia como somente outra forma de “fugir” do contato amoroso com outro ser humano. Fervorosamente contra a pornografia, Reich talvez enxergasse uma civilização debruçada sobre computadores e bancadas de fábricas exploradoras, trocando a conexão com o físico pela conexão com um smathphone, e concluiria que a “praga emocional” continua viva e bem. Talvez ele enxergasse uma população mais blindada do que nunca, imersa num ambiente cheio de variantes da DOR, fora de contato com a vida, e necessitando talvez de uma liberação sexual completamente nova – um retorno ao mundo físico.

A ambivalência compreensível da disciplina psicanalítica sobre Reich não tinha mudado, mas a cultura sim. As ideias de Reich encontraram um interesse mais amplo. Como Norman Mailer resumiria depois para seu analista Walter Kendrick: “O que era importante para mim era a força, a clareza, o poder dos primeiros trabalhos [de Reich] e a audácia. E também o fato de que acredito, num sentido básico, que ele estava certo”.

Artigo publicado no website VICE. De autoria de Jason Louv dirige o blog futurista Ultraculture.org, e canaliza dados do lado negro no @jasonlouv.

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