Contos https://minasi.com.br Alcançando a integralidade através de terapia holística. Transforme sua vida através de aconselhamento personalizado e treinamento motivacional. Wed, 09 Oct 2024 19:39:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://i0.wp.com/minasi.com.br/wp-content/uploads/2024/09/cropped-MeuEuMelhor.webp?fit=32%2C32&ssl=1 Contos https://minasi.com.br 32 32 103183256 Para sair da caverna https://minasi.com.br/para-sair-da-caverna/ https://minasi.com.br/para-sair-da-caverna/#respond Tue, 24 Oct 2023 18:40:47 +0000 https://minasi.com.br/?p=3182 Eu fui um dos prisioneiros da caverna de Platão. Desde que nasci, vivi acorrentado a uma parede, olhando para as sombras projetadas por uma fogueira. Essas sombras eram tudo o que conhecia do mundo, e acreditava que elas eram a realidade. Os sons que ecoavam na caverna eram as vozes dos seres que habitavam esse mundo de sombras, e eu os imitava sem saber o que significam.

Um dia, um dos meus companheiros conseguiu se libertar das correntes e saiu da caverna. Ele voltou depois de algum tempo, com os olhos ofuscados pela luz. Ele me contou que fora ao mundo exterior, e que lá viu coisas maravilhosas: o sol, as estrelas, as árvores, os animais, as cores. Ele me disse que as sombras que vemos na caverna são apenas cópias imperfeitas dessas coisas reais, e que os sons que ouvimos são apenas ecos distorcidos das suas vozes. Ele me disse que eu deveria segui-lo, e sair da caverna também.

shadow of a person

Eu fiquei assustado com o que ele me disse. Eu não conseguia acreditar que tudo o que eu conhecia era falso, e que havia um mundo muito mais belo e verdadeiro lá fora. Eu achei que ele estava louco, e que a luz tinha lhe feito mal. Eu preferi ficar na minha zona de conforto, na minha ilusão familiar. Eu não quis arriscar a minha segurança, a minha tranquilidade, a minha identidade.

Mas ele não desistiu de mim. Ele voltou a me visitar, e me trouxe presentes do mundo exterior: uma flor, uma pedra, um espelho. Ele me mostrou como essas coisas eram diferentes das sombras, como elas tinham forma, textura, aroma, reflexo. Ele me mostrou como elas eram mais bonitas e mais interessantes do que as sombras. Ele me mostrou como elas eram mais reais.

Ele também me falou sobre si mesmo. Ele me contou como ele se sentia diferente depois de sair da caverna. Ele me contou como ele se sentia mais livre, mais feliz, mais sábio. Ele me contou como ele se sentia mais ele mesmo. Ele me contou como ele se conhecia melhor.

photo of man sitting on a cave

Ele me fez pensar sobre mim mesmo. Ele me fez questionar as minhas crenças, os meus valores, os meus preconceitos. Ele me fez duvidar das minhas certezas, das minhas opiniões, dos meus costumes. Ele me fez ver as minhas limitações, as minhas ignorâncias, as minhas ilusões.

Ele me fez querer sair da caverna.

Ele me ajudou a romper as correntes que me prendiam à parede. Ele me guiou pelo caminho escuro e íngreme que levava à saída da caverna. Ele me protegeu dos perigos e das tentações que surgiam pelo caminho. Ele me encorajou a seguir em frente, mesmo quando eu sentia medo, dor ou cansaço.

Ele me levou até o mundo exterior.

Eu fiquei deslumbrado com o que vi. Eu fiquei maravilhado com a beleza e a diversidade das coisas reais. Eu fiquei fascinado com o conhecimento e a compreensão que elas me proporcionavam. Eu fiquei grato pela oportunidade e pela responsabilidade de viver nesse mundo.

Eu também fiquei surpreso com o que senti. Eu fiquei orgulhoso da minha coragem e do meu esforço. Eu fiquei satisfeito com o meu crescimento e com a minha transformação. Eu fiquei feliz com a minha liberdade e com a minha felicidade.

Eu fiquei contente comigo mesmo.

Eu me conheci melhor.

Eu saí da caverna de Platão.

E você? Você quer sair da caverna também? 😊

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O cavalo e os dois cavaleiros https://minasi.com.br/o-cavalo-e-os-dois-cavaleiros/ Wed, 28 Feb 2018 11:19:32 +0000 http://minasi.com.br/?p=1164 Havia um menino que queria apreender a lutar judô. Era um sonho, repetidamente falado ao pai que, descuidado, nunca viabilizava o desejo do menino. Um dia, triste dia aquele, num acidente de carro, o menino de sete anos ficou gravemente ferido e perdeu o braço direito. Foi terrível essa perda e trouxe uma depressão demorada. Além de tudo, jogou por terra o sonho antigo de lutar judô. Custou para sair da depressão. E quando saiu, voltou o sonho de lutar judo, para desespero da família. Com receio do estrago que uma nova decepção poderia fazer na vida daquele menino, o pai falou com o mestre de judo e pediu que aceitasse o menino na escolinha. O mestre concordou. E o menino começou as aulas de judô. Um mês depois, porém, o desânimo já havia substituído o sonho.

Durante aquele mês, todos os meninos haviam apreendido vários golpes e ele, apreendera apenas um único golpe, que repetia todos os dias, enfadonhamente. Mas o sonho teimava em voltar… e o menino persistiu. Até ao final do ano, quando enfim resolveu desistir e comunicou aos pais a decisão. O alívio da família durou pouco, pois durante as férias anunciaram um campeonato de judo na cidade e o mestre inscreveu o menino sem braço direito. Surpresos e apreensivos, os pais falaram com o mestre e o sábio pediu um voto de confiança: eu sei o que estou fazendo. Podem confiar em mim. Eu assumo a responsabilidade!

E assim foi. E assim começou o campeonato. Na primeira luta, o ginásio tremeu prevendo o pior: o adversário partiu para cima do menino sem braço direito, que se defendia conforme podia, acuado e cada vez mais golpeado. Até que, num momento de desespero, ele inventou de aplicar o único golpe que sabia e… ganhou a luta!  Coincidência, sorte, acaso – comentavam na cidade. Chegou a segunda luta e a história se repetia. O menino cada mais acuado pelos golpes do adversário, defendia-se conforme podia… e quando não suportava mais a força da luta, quase no desespero, aplicou o seu único golpe… e venceu a luta.

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E assim, de luta em luta, aquele menino sem braço direito, foi chegando na final do campeonato. Era o assunto na cidade. Os pais ficaram apavorados e mais uma vez falaram com o mestre, que os tranquilizou dizendo que assumia a responsabilidade. Mas o adversário da final era muito experiente. O ginásio lotado previa o pior. A luta começou e os pais fecharam os olhos temendo o desastre anunciado. O adversário, experiente de verdade, partiu para cima com tudo… e o menino sem braço direito acusou os golpes pesados. E, mais no sufoco do que na estratégia, resolveu aplicar seu único golpe… e ganhou a luta! O ginásio foi à loucura e a imprensa caiu em cima do mestre: como pode um menino sem braço direito vencer o campeonato de judô?! E o mestre respondeu sereno: tem dois segredos! O primeiro, é que esse golpe é muito importante na arte do judô… e esse menino, treinou todos os dias, durante o ano inteiro, esse mesmo golpe. Ele se tornou especialista nesse golpe e executa-o na perfeição. E o segundo segredo é que, a única forma do adversário se proteger desse golpe, é segurando no braço direita de quem o aplica!

A parábola do menino sem braço é o retrato falado da nossa história. Passamos a vida repetindo o mesmo golpe, os mesmos mecanismos da nossa Personalidade, porque deram certo lá na infância e continuamos executando religiosamente a mesma estratégia ao longo da vida, até nos tornarmos especialistas nisso. A Personalidade é o golpe de mestre que aprendemos e aperfeiçoamos. É a nossa especialidade de sobrevivência. Somos muito bons nisso, sem dúvida! Esse é o primeiro segredo.

O segundo nos lembra que a nossa fraqueza é a nossa força. Dizia Paulo Apóstolo: “quando sou fraco, então é que sou forte”. Ele demorou para entender isso e antes de chegar a essa descoberta, cansou de pedir a Deus que o livrasse do espinho na carne – e talvez não seja difícil descobrir qual era o espinho na carne  de Paulo, se concordarmos que ele seria Tipo Um. Quando temos consciência do nosso ponto fraco, quando temos consciência que a nossa Personalidade nos cega e pode cavar o nosso fracasso… mas a aceitamos e acolhemos, ela passa a ser o sinal de alerta, a luz vermelha que acende no painel do carro, para dizer que a temperatura subiu e o o motor corre perigo. A consciência da nossa vulnerabilidade é o início imprescindível do nosso caminho de transformação. E a Personalidade que antes incomodava, passa agora a ser aliada no caminho de volta para a Essência.  A cicatriz é o lugar por onde entra a luz –  dizia o místico Rumi. Onde habitou o pecado, superabundou a graça,   diz o Hino do anúncio da Páscoa na tradição Cristã.

 Personalidade e Essência, cavalo e cavaleiro, em sintonia, no mesmo rumo.  Mas tem um segredo aí no meio desse caminho. Lembramos a história da mosca que caiu no copo de leite e sentiu seu corpo se afogando… e, no desespero, bateu as asas com força, foi se criando aquela nata por cima do leite, a mosca subiu na película de nata e conseguiu escapar. No dia seguinte a mesma mosca caiu num copo com água e sentiu novamente o corpo afundando… mas agora, ela já sabia a solução! Bateu as asas com força… cansou e morreu afogada. A Personalidade é  aquela  estratégia que deu certo um dia na nossa infância… e que nós passamos a repetir em todas as situações. Às vezes dá certo…. e nós vamos assim reforçando a trilha mental que torna essa resposta cada vez mais mecânica e inconsciente. Mas afundamos também, muitas vezes, por usarmos a estratégia certa, na hora errada.

Por isso, se muitas vezes a Personalidade protege a Essência e se outras tantas vezes a submerge ou cega, urge descobrir o segredo, o terceiro ponto, o Ponto da Consciência, que nos permite, em cada momento concreto, olhar a Personalidade e a Essência e discernir qual é a energia mais favorável nessa situação concreta. O Ponto da Consciência é o lugar da auto-observação, um espaço neutro, onde nos tornamos espectadores de nosso teatro interior, conscientes das vozes que nos habitam e podemos, a partir dele, reger a orquestra, sem nada excluir, mas integrando e encontrando o momento certo para cada ator assumir a boca da cena. Inácio de Loyola, grande mestre da vida interior, chamava a isso Indiferença.  Um estado de liberdade interior, de desapego, a partir de onde podemos fazer opções, sem condicionamentos, na liberdade. É um estado de não julgamento. A percepção livre de que há momentos em que a Personalidade ajuda e outros em que a Essência pode fluir livremente.

A Essência nos foi dada, é dom gratuito do Criador. Apenas acolhemos e devemos ser gratos por isso. A Personalidade foi construída por nós, mas de modo inconsciente, num jogo de reações defensivas. Mas este terceiro espaço, precisa ser construído por nós e só a consciência pode fazer essa empreitada. É o nous da Filosofia Grega, é aquele estado de observação onde nos tornamos testemunhas de nós mesmos. Gosto de chamá-lo de Estado Meditativo, ou Ponto da Meditação, pois a meditação é sem dúvida O Caminho que nos coloca nesta trilha de busca e encontro do equilíbrio.

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Um cavalo, dois cavaleiros

Então, além do cavalo e do cavaleiro, procuramos o terceiro elemento. Os Templários, expressavam sabiamente e de forma emblemática esta compreensão, num símbolo que se formou mágico na sua tradição: um cavalo, com dois cavaleiros!  O Cavalo é a Personalidade, o meio de transporte, a condição de estarmos e nos movermos neste chão que habitamos em nossa existência na Terra. Um dos cavaleiros é a Essência, a intuição sagrada que nos guia no rumo da fonte que tem sede de quem tem sede, como dizia Rumi. A Essência  é pura, inocência pura, bondade natural, leveza, aquele estado de comunhão com o Uno onde nos sentimos verdadeiramente Um. É confiança, entrega, abandono total. A Essência não tem defesas. Quando experimentamos o estado de Essência, geralmente perdemos até a noção de tempo e de espaço. Saímos deste plano temporal e entramos na Eternidade. Os breves momentos em que que saboreamos a Essência, são amostras grátis da Eternidade. A Eternidade, o Sagrado, o Divino… está dentro do Tempo, porque  Deus é presente, palpável, encontrável, experienciável. E é nesse ponto que Deus e o Ser Humano se encontram e são Um, quando a Personalidade e a Essência se abraçam e nesse ponto fora da curva podemos degustar a amostra grátis de Eternidade.

A Personalidade é a saudade da Essência. O muro que nos separa da Essência, mas que também nos une a ela. A janela que impede o vento… ou que se abre para o vento passar. Se a Essência nos dá asas, a Personalidade nos deu os pés para andarmos neste chão, sobre pedras e espinhos, como Ícaros de pés alados.

O segundo cavaleiro é a Consciência. Na alegoria dos Templários, é o cavaleiro de trás,
não é ele que guia o cavalo, mas ele tem uma visão ampla, que lhe permite ver o cavalo e o outro cavaleiro e falar com os dois, como o Conselheiro  neutro que ao mesmo tempo

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O segundo cavaleiro é a Consciência

enxerga as estrelas que atraem e os buracos do chão onde pisa ou as pedras do caminho que trilha. Ele alerta a Essência para se manter realista, percebendo o caminho e desperta o olhar do cavalo para enxergar além das pedras de tropeço e fixar o coração no horizonte mais além. É de sonho e de pó o destino de um só, cavalo e cavaleiros, nessa tríade sagrada que supera todos os dualismos. Dizia Rumi que  para além do certo e do errado, existe um campo sagrado. Porque é sagrado também esse terceiro ponto que a Lei do Três nos relembra. É o sagrado consciente, o sagrado experimentado, vivenciado, o que talvez possamos de verdade chamar espiritualidade, ou inteligência espiritual, ou talvez o que Gurdjieff chamava de  Quarto Caminho.

O segredo Templário  de andar pela vida, despertos, com os pés calejados pisando nas pedras do caminho e os olhos encantados e atraídos pelo horizonte! Se houver apenas o cavalo e o cavaleiro, ou o cavalo leva o cavaleiro para onde este não quer, por não ser a sua origem e seu destino… ou o cavaleiro briga com o cavalo e perde o controle sobre ele e assim fica sem meio de transporte para chegar mais longe. A Consciência é o diplomata que reconcilia Personalidade e Essência, conciliando a vontade de ir para um lugar e a capacidade de chegar lá. Não adianta andar por aí sem saber onde se quer chegar, como também não adianta saber para onde se quer ir,  sem ter como lá chegar. Não há vento favorável para quem não sabe onde quer chegar e mais importante que a liberdade de voar é saber para onde ir. Mas também não adianta o vento soprar forte, se o barco não tiver as velas abertas.  A Personalidade é a vela da jangada e o jangadeiro é a Consciência que enxerga o caminho, guiado pelas estrelas. A Personalidade é o GPS que nos guia na busca da Essência, na volta para casa, de onde vimos e para onde vamos, porque esse GPS registrou o itinerário que fizemos ao sair de casa, como o  gato do português.  Só ele sabe o caminho de volta e por isso pode ajudar-nos.

A Essência nos foi dada. A Personalidade foi construída por nos, mas de modo inconsciente. A Consciência, essa sim, é a construção responsável que a vida nos convida a fazer, reconciliando as outras duas dimensões e colocando-as a serviço da Missão de Vida, nesta Cruzada Sagrada em defesa dos lugares santos que nos habitam. Cuide bem da Personalidade, como cuida da Essência, porque as duas são um só – e só a Consciência permite ver isso!

Conta a lenda dos índios Cheroke, que o menino correu para casa assustado e disse que estava com muita raiva do coleguinha que tinha sido injusto com ele. E o velho avô cacique indígena, acolheu o neto, sentou-o nos seus joelhos e disse:  é assim mesmo, meu querido. Nós sentimos raiva e injustiça, desejo de vingança, tristeza e mágoa…  é assim mesmo. Porque dentro de nós tem dois lobos. Um lobo bom, que ama e quer bem, perdoa e abraça… e um lobo mau que anseia por vingança. E esses dois lobos vivem o tempo todo brigando dentro dentro de nós. E conta a lenda que o menino se empolgou com essa parte da história e perguntou animado: – é mesmo, vô?! E quem ganha essa briga?! E vem depois a sábia resposta do velho cacique:  ganha aquele que você alimentar mais.  Mas não termina aqui a sentença. A nossa cultura dualista cortou aqui a sabedoria da lenda indígena. Mas, na verdade, o velho índio teria continuado o ensinamento para o seu neto, dizendo: mas  trate bem o lobo mau, para ele não se voltar contra você.

Personalidade e Essência são os dois lobos que nos habitam. Alimentar mais o lobo bom significa priorizar a Essência, cuidar daquilo que em nos é bom, saudável, sagrado. Mas trate bem a sua Personalidade, respeite-a, para que ela não se volte contra você. Porque o Ego sempre se vinga, quando é desprezado, ignorado ou reprimido.

cavalo-cavaleiro-jogo-xadrezQuando andei pelo Peru visitando as marcas da cultura Inca, passei três dias me perguntando como os invasores puderam destruir aquele povo, por que aquele império não resistiu. E entre muitas explicações e razões para costurar respostas, um elemento simbólico me chamou a atenção: os Incas não conheciam o cavalo e, quando viram aqueles estranhos chegando, homens montados nos cavalos, acreditaram que esses seres estranhos eram deuses, por acharem que o homem e o cavalo eram uma coisa só. Boa simbologia para a nossa conversa. Quando cavaleiro e cavalo se tornam um só, acontece a deificação do ser humano, nos tornamos aquilo que somos de verdade. Aquela garrafa que atravessa os mares, faz com que uma mensagem importante chegue bem longe e se perpetue e até salve vidas. Assim está a Personalidade para a Essência, levando uma mensagem divina através de mares bravios. No dia em que você se ajoelhar perante a sua Personalidade e lhe prestar homenagem e assim honrar também os seus antepassados e as circunstâncias que criaram condições para a sua Personalidade emergir… nesse dia você dará à sua Personalidade a carta de alforria e a promoverá à livre cidadania e, numa aliança de amor, poderá pedi-la em casamento, como na lenda do Kiriku e da Feiticeira Marabá. Ou como o profeta Oseias casou com a Prostituta, ou como o paralítico  curado por Jesus na beira da piscina saiu carregando a sua cama – a cama que antes o carregava e limitava, agora é carregada por ele, porque a tomada de consciência fez perceber que a cama pode ser útil. Ser levado pelo cavalo selvagem desenfreado… ou cavalgar o cavalo domesticado  que me leva ao horizonte que me atrai.

Há que se fazer algo com aquilo que foi feito de nós. Há que se tornar responsável, por aquilo que nos determina. Há que aceitar como a nós mesmos esse Outro que nos visita – dizia Freud.  Somos responsáveis por aquilo que a Vida fez de nós. Responsável é ser capaz de dar uma resposta criativa, trocando o porque pelo para que.

O segundo cavaleiro cuida do cavalo e cuida do outro cavaleiro. A sua posição privilegiada  lhe permite enxergar o caminho de forma mais distanciada e falar no ouvido do primeiro cavaleiro. E assim, este segundo cavaleiro da  Consciência, pode dirigir o cavalo e o cavaleiro para horizontes mais plenos. Enquanto o primeiro cavaleiro fica ocupado em manter o controle do cavalo, o segundo fica livre para enxergar o caminho e o horizonte e discernir os rumos nas encruzilhadas da vida. Cavaleiros do Templo, do templo sagrado que nos foi arrebatado e precisa ser libertado dos infiéis, para nele nos reencontramos com o Divino que nos habita.

Tem muitos cavalos selvagens andando por aí à toa, sem chegar a lugar nenhum. E tem muito cavaleiro perdido brigando com o cavalo e tem também muito cavalo levando cavaleiros por abismos perigosos ou vales ociosos.

Procure o seu cavalo e cuide bem dele. Domestique e amanse, como Santa Marta fez com o seu dragão. Não se deixe iludir pela conversa de S. Jorge no ledo engano de querer matar seus dragões. Coloque rédeas no seu cavalo e afague o rosto dele,  como faz o cavaleiro antes da corrida. Respeite-o. Não maltrate nem se iluda que consegue viver sem ele. Seja a Consciência que conversa com o cavalo e o cavaleiro. Sem o cavalo, você não irá muito longe, mas o cavalo sozinho pode se perder e botar a perder o cavaleiro. O valor do cavalo está no que ele permite ou proporciona ao cavaleiro. Quem ganha o prémio na corrida hípica é sempre o conjunto  harmonizado. Nenhum cavalo ganha corrida sem cavaleiro e nenhum cavaleiro ganha corrida sem cavalo. Mas precisa ter liga, cavalo e cavaleiro. Se não tiver sintonia, o cavalo derruba o cavaleiro. Qual é o melhor cavalo? Depende! Para marchas longas tem um e para corridas rápidas tem outro. Para o trabalho agrícola já seria outro e nas touradas já é outra raça. O cavalo está para o cavaleiro assim como a Personalidade está para a Essência: a serviço, em sintonia, num conjunto harmonioso. Tem cavalo que dá coice e tem cavalo que dança na frente do touro, na tourada à antiga portuguesa. A diferença está no treino e no cavalo adequado.quadro-decorativo-de-xadrez-cavalo-quadro-jogo.jpg

Mas cavalo impetuoso fica parado misteriosamente na frente de uma criança deitada no chão…

Porque a Personalidade se rende perante a beleza e a grandeza simples da Essência, como nas cenas fortes da não violência ativa de Gandhi.

O cavalo alado é o paradigma da Personalidade e da Essência em harmonia. Ou um anjo com os pés no chão, como Ícaro com asas nos tornozelos.

É a Consciência que sabe escolher o cavalo e conversar com ele e tirar dele o melhor. Consciência é saber enxergar as potencialidades e habilidades  do cavalo e sintonizar tudo isso com o sonho do cavaleiro, que lhe vem da Essência. E quando cavalo e cavaleiro sintonizam, tem vencedor no hipódromo da vida. Mas o texto sagrado nos lembra que o homem não vence pela força do seu cavalo e adverte também ai do homem que coloca a sua confiança nos cavalos.

Feliz o ser Humano que domestica o seu cavalo e guiado pelo apelo que da Essência lhe vem, passeia conscientemente pelos caminhos da vida, atento às pedras do caminho e saboreando as belezas da paisagem, encantado pela luz do horizonte que o chama mais além.

Feliz o Ser Humano que apreendeu a ser Um no Três e Três no Um, integrando o cavalo e os dois cavaleiros.

Feliz o Ser Humano que ao longo da vida cultiva e aprende a cuidar do segundo cavaleiro, a Consciência, testemunha, observador atento.

De Deus nós vimos, como Essência. A infância nos deu o cavalo selvagem da Personalidade. A Consciência é o cavaleiro que nos guiará de volta ao Uno.

Autor: Pe. Domingos Cunha, CSH

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O Gato e o Português – uma parábola da personalidade https://minasi.com.br/o-gato-e-o-portugues-uma-parabola-da-personalidade/ https://minasi.com.br/o-gato-e-o-portugues-uma-parabola-da-personalidade/#respond Sun, 25 Feb 2018 11:02:01 +0000 http://minasi.com.br/?p=1161 O português queria se livrar do gato, que bagunçava a casa toda e dava um trabalho danado. Sábado de tarde, ele levou o gato para passear de carro e soltou o bicho. Um lugar bem distante. Quando chegou em casa, o gato já lá estava, tranquilamente deitado no sofá da sala.

Aumentou a raiva do português. No final de semana seguinte, caprichou na operação: colocou o gato dentro de um saco, colocou na mala do carro e levou-o para um lugar bem mais distante.  Voltou para casa satisfeito sentindo-se vingado das estripulias do gato. Mas… eis que, chegando em casa, lá estava o gato espreguiçado na cozinha. A raiva foi maior ainda e o português passou a semana estudando um esquema infalível para se livrar do gato. Agora, não podia falhar.

No sábado seguinte, colocou novamente o gato dentro de um saco, com as patas amarradas. E viajou para bem longe. Andou pela periferia da cidade, entrou numa favela e rodou pelos becos, entrou em esquinas sem saída e depois de muito rodar, já noite feita, parou o carro e deixou o gato, amarrado e dentro do saco.

Finalmente e definitivamente livre do gato, ele começou a viagem de volta para casa, saboreando um sentimento de vingança executada. Mas perdeu-se nas encruzilhadas da periferia e não encontrava saída para voltar para casa. Rodou feio, noite adentro, até que, horas depois, já no desespero, ligou para a esposa e perguntou: Maria, o gato já chegou em casa?! E ela respondeu: Faz é tempo que ele chegou e está aqui deitado no sofá! E foi então que o português da piada falou: Pois bota esse safado aí no telefone pra ele me ensinar o caminho de volta para casa porque eu estou perdido!

A Personalidade é a gato do português. Ela dá trabalho e bagunça a nossa vida e tantas vezes queremos livrar-nos dela. Mas antes disso, como todo o gato, também a nossa Personalidade foi um animalzinho de estimação. Durante muito tempo cuidamos bem dela e a acostumamos mal deixando que se tornasse a rainha da casa. Ela ficou espaçosa e dominou a nossa vida. Um dia porém, caiu a ficha e começamos a contabilizar o estrago e fizemos contas ao preço que pagamos por causa dela. E aí ficamos com raiva. Quisemos nos livrar da Personalidade e lutamos contra ela. Armamos esquemas para descartar o nosso gato incômodo.

Mas não adianta. O gato sempre chega em casa antes de nós mesmos. Ele é fiel à casa e ao dono e por mais longe que o deixemos, ele sempre volta e volta rápido. Pense num GPS infalível que esse gato tem.

E um dia, finalmente, nos renderemos ao nosso gato, pedindo para que ele nos ensine o caminho de volta para casa, quando nos perdemos nos becos sem saída das periferias do nosso ser.

A Personalidade é o GPS que sabe o caminho de volta para casa. Foi a Personalidade que nos fez sair de casa e nos ensinou a viver na ruas de nossas periferias. Mas também é a Personalidade que pode nos ensinar o caminho de volta para a Pátria Mãe da nossa Essência.

Não se desfaça dela. Não gaste energia lutando contra ela. Cuide bem dela. Você precisa dela!

Um dia você pode ajoelhar e num gesto de gratidão, homenagear a sua Personalidade por serviços prestamos como guarda costas de sua Essência. Ela protegeu você e lhe ensinou habilidades únicas para você sobreviver e dar conta de ser o que é hoje. Faça com ela uma aliança de paz, como aquele rei da parábola do Evangelho que tendo dez mil homens e indo guerrear com outro que vinha contra ele com vinte mil, enviou um mensageiro para fazer um acordo… e passou a ter trinta mil homens a seu favor.

Faça as pazes com o seu gato e descubra uma missão para ele. Acolha a sua Personalidade e integre-a a serviço da sua missão de vida!

A Personalidade nos ensinou habilidades importantes para podermos expressar a nossa Essência, nesta realidade concreta da nossa existência. A nossa Missão vem da Essência, mas é a Personalidade que nos permite vivenciá-la neste chão. E assim, Essência e Personalidade, numa dança harmoniosa, nos permitem encontrar o Sentido da Vida.

A Personalidade é a loucura que inventamos para sobreviver

Não somos a nossa Personalidade. Somos Essência e temos uma Personalidade. Mas esse recurso que temos é importante e faz falta também. Se porventura conseguíssemos eliminar a Personalidade, seríamos pessoas sem paixão, sem vida, indefesos e inadequados para andar sobre este chão. Claudio Naranjo lembra que a Personalidade é a loucura que inventamos para sobreviver. É loucura, sabemos agora, mas uma loucura que foi necessária. A Personalidade é a habilidade que a lei da sobrevivência nos ensinou e que nós treinamos desde a infância até à exaustão… e nisso nos tornamos especialistas.

O Tipo Oito se tornou especialistas em força, em missões difíceis, abrindo caminhos e ousando, porque às vezes, por falta de um grito se perde a boiada.

O Tipo Nove é especialista em diplomacia, conciliação, harmonização, paciência e paz. Sabe viver e deixa viver.

O Tipo Um é especialista em aperfeiçoamento. Olho clínico para perceber o que falta e o que está errado, sabe como melhorar e corrigir.

O Tipo Dois é especialista em catar as necessidades dos outros, termómetro de clima emocional externo, radar sensível e cuidador atento e generoso.

O Tipo Três é especialista em eficiência e estratégia, metas e resultados, imagem e impacto, com visão de futuro e senso de oportunidade.

O Tipo Quatro tornou-se especialista em sensibilidade, inovação e criatividade, capacidade de fazer a diferença e colocar a marca própria em tudo o que faz.

O Tipo Cinco é especialista em observação, compreensão e visão de conjunto, profundidade e neutralidade, objetividade e afastamento emocional.

O Tipo Seis tornou-se especialista em perceber perigos e ameaças, construir cenários e imaginar o que pode acontecer. Tornou-se ícone da prudência e do bom senso, precavido e antenado.

O Tipo Sete acabou se tornando especialista em criatividade rápida, sobretudo nas situações difíceis. Sonho, fantasia, alegria e capacidade de ver e viver o lado bom da vida.

Alguém toparia negociar… perdendo estas habilidades?! Este gato é valioso para cada pessoa. E pode ser muito útil, se for domesticado e colocado a serviço da missão.

Autor: Pe Domingos Cunha, CSH

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O eneatipo 2 e o complexo de Wendy https://minasi.com.br/o-eneatipo-2-e-o-complexo-de-wendy/ Fri, 16 Feb 2018 14:00:47 +0000 http://minasi.com.br/?p=1116 O “Complexo de Wendy” tem sua raiz na psicologia popular.

Apesar de não ser um transtorno reconhecido pelos manuais de psicodiagnóstico, apresenta certos pontos que se traduzem em aspectos clínicos que requerem um tratamento.

Centrar nossa existência no cuidado alheio provoca uma gradual autodestruição. A queda de autoestima ou o esgotamento físico e mental podem gerar perfeitamente uma depressão.

A literatura clássica nos traz com muita frequência autênticos modelos capazes de descrever comportamentos muito reais.

O “Complexo de Wendy”, a “Síndrome de Peter Pan”, a “Síndrome de Otelo” ou a “Síndrome de Alice no País das Maravilhas” descrevem transtornos, problemas e comportamentos onde a ficção se transforma, muitas vezes, em realidade.

Agora, podemos dizer sem errar que o que intitula este artigo é o mais comum de todos.

De certo modo, muitas mulheres o interiorizam não por imposição, e sim porque é assim que as coisas funcionam há gerações.

Porque quem cuida e ajuda, ama. Porque dar tudo é, aparentemente, uma forma excepcional de amar. No entanto, às vezes nos esquecemos de algo: quem dá também merece e deve receber. 

É aí que começa o problema, a dissonância emocional, a tristeza. Propomos refletir sobre o assunto através dos seguintes fatores.

A Síndrome de Wendy, ou a renúncia progressiva a si mesmo

Apesar desta síndrome, como indicamos, estar relacionada com a psicologia popular, a sintomatologia que apresenta é bem clara:

Descubra como reparar seu relacionamento depois de uma infidelidade

Entendemos que amar é, acima de tudo, atender o outro.

  • Durante muito tempo nos sentimos bem por estabelecer este tipo de relação. É assim que entendemos o amor.
  • Não nos preocupamos (no princípio) que os demais não nos atendam de modo igual. Basta saber que nosso companheiro se sente amado e que é feliz. É assim que nos sentimos bem.
  • Fazemos o que for para que aqueles que nos rodeiam não se aborreçam, não se incomodem. Lutamos pelo equilíbrio alheio nos esquecendo do nosso.
  • No entanto, pouco a pouco percebemos que os demais percebem cada esforço e cada renúncia feita como “algo normal”, até o ponto de se tornarem tirânicos e exigentes.

Se isto é o que você está experimentando no momento, confira a seguir alguns fatores que precisam mudar.

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Entenda que amor não é sacrifício: amor é dar e RECEBER

Muitos de nós fomos educados com ideia de que no amor é preciso renunciar a certas coisas para garantir a relação. Se você ama alguém, “tem que silenciar” muitas coisas.

Também nos fizeram acreditar que temos que dizer “sim” quando o que pensamos é “não”. Que amar é, acima de tudo, priorizar o outro antes de nós mesmos.

Se você também tem em mente estes esquemas de pensamento, comece a derrubá-los para hospedar outros novos:

  • Amar não é renunciar. Se você renuncia, se converte em um suplente de si mesmo.
  • Uma relação afetiva deve ser madura e consciente. Ambos os membros devem dar, não existe dúvida, mas é igualmente importante receber.
  • Trata-se de formar uma equipe, de harmonizar forças, interesses e necessidades.
  • No complexo de Wendy sempre existe um que oferece e um que recebe. Um que ganha e outro que, pouco a pouco, perde.
  • No entanto, o real problema está no fato da outra pessoa não perceber isso. No início das relações um se sente feliz cuidando, preocupando-se, olhando cada detalhe para oferecer o máximo de bem-estar.
  • No entanto, com os meses ou anos, notamos que algo está errado. No final, tudo o que fazemos é dado como certo, não é apreciado, e mais é exigido.

Não temos que cair nestes labirintos tão complicados e infelizes.

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Ideias para olhar as relações afetivas de outro modo

Primeiro e essencial conselho: nunca deixe de ser você mesmo, por mais que ame a outra pessoa. Do contrário, cedo ou tarde aparecerá a frustração, o mal-estar, a infelicidade.

Cuide, proteja, concorde, presenteie, renuncie… Agora, seu parceiro também deve cuidar de você, concordar, presentear e fazer alguma renúncia por você. No entanto, e pontuamos: faça renúncias sempre que sejam pelo bem comum.

  • Não peça perdão por algo que não é responsabilidade sua.
  • O maior medo das pessoas com Complexo de Wendy é de serem abandonadas. Para evitar que isso ocorra, podem fazer qualquer coisa (nunca chegue neste extremo).
  • É necessário aprender a ser feliz na solidão. Desfrutar de nós mesmos até o ponto de saber que caso fiquemos sem alguém, o mundo não irá terminar. 
  • Aprenda, por outro lado, a corrigir seus padrões de pensamento, especialmente aqueles que trazem sofrimento. Deste modo você criará novas emoções e será mais forte.
  • Quebre ideias como “se eu cuidar melhor ele me amará mais”, “é melhor renunciar a isso e assim ele se dará conta de como eu amo”.
  • Deixe de projetar todas as suas esperanças, desejos e energias na outra pessoa. Reparta e faça-o com equivalência. Você merece meu amor e eu também mereço seu respeito.

Lembre-se: no amor merecemos dignidade. Não aceite menos: aprenda a receber e lute por sua integridade pessoal.

Fonte: Melhor com saúde

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A casa de hóspedes  https://minasi.com.br/a-casa-de-hospedes/ Sun, 13 Aug 2017 13:04:38 +0000 http://minasi.com.br/2017/08/a-casa-de-hospedes/ O Ser humano é uma casa de hóspedes.Todas as manhãs uma nova chegada.

Uma alegria, uma depressão, uma maldade, alguma consciência momentânea vem como um visitante inesperado.


Devemos recebê-los: Bem-vindos; e entretê-los todos!

Mesmo se eles são uma multidão de tristezas, que violentamente arranquem  toda a sua mobília da casa, ainda assim, devemos tratar cada convidado honrosamente.

Ele pode estar te limpando para um novo deleite.

O pensamento sombrio, a vergonha, a malícia, encontrá-los na porta rindo e convidá-los a entrar.

Agradeça pelo que vier.

Porque cada um foi enviado como um guia do além.

— Jellaludin Rumi, tradução por Coleman Barks

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A Concha em que vivemos https://minasi.com.br/a-concha-em-que-vivemos/ Tue, 18 Jul 2017 16:28:15 +0000 http://minasi.com.br/?p=536 358601_1280x720

Era uma vez num coral de recifes, uma grande comunidade de moluscos que moravam em suas conchas e eram protegidos dos perigos do oceano pela barreira criada por esta proteção dos arrecifes e pelas conchas, que carregavam em suas costas.

Suas atividades diárias compunham-se de buscar alimento e proteger os membros de seu grupo dos inimagináveis perigos que rondavam pelo oceanos: peixes famintos, ondas gigantes, monstros marinhos… Então, sempre havia um deles guardando as fronteiras, que à menor sensação de perigo, soava o alarme e todos se escondiam dentro de suas conchas muito duras.

Para onde quer que fossem, esses pequenos animais carregavam em suas costas essa carapaça, que faziam com que se sentissem seguros. Ora, ninguém nem imaginava que existisse outra coisa que não fosse essa vida que levavam, na procura de comida e segurança. Cada qual por si, e todos protegidos por este grande arrecife.

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Cada qual por si, e todos protegidos por este grande arrecife.

Com o passar do tempo, a comunidade só crescia e sentiam-se cada vez mais seguros, uma vez que nada acontecia ali.

Então, certa feita, chegou a este grupo um molusco novo, que havia crescido na praia, onde se escondia dentro da areia, correndo o risco de ser devorado pelas aves, que por ali voavam. Num dia uma forte tempestade, de ondas gigantes, raios e mar em fúria arrancou sua concha e o arremessou no mar, sozinho.

Ele nunca tinha sentido algo tão diferente: uma sensação de medo e ao mesmo tempo uma senso de liberdade. Não conseguia compreender, porque ele olhava o mundo de um ângulo que nunca tinha visto: sem a segurança de sua concha, num mar aberto, cheio de novos perigos, que nunca tinha enfrentado: peixes e outros seres marinhos. Entre um movimento aqui e uma nadada ali, deu-se conta que o oceano era muito maior que a praia onde ele vivia e as possibilidades pareciam ser infinitas, mas sentia-se incomodado, por não ter uma concha que o protegesse mais, que dava formato para seu corpo, que o dava conformidade com os de sua espécie. O que seria ele agora? Como ele poderia explicar tudo isso para os outros? E essas novas sensações…

Até que o mar o conduziu a este arrecife, onde morava a comunidade dos moluscos.

Ao chegar nos arrecifes, sem nenhuma concha, aqueles moradores ficaram escandalizados. “Como pode alguém se expor dessa forma?”, perguntou o ancião. “Ele não segue os padrões divinos!”, exclamou o sacerdote. “Precisa ser contido, antes que influencie nossa comunidade e coloque todos em perigo”, gritou a autoridade máxima.

O molusco, que havia descoberto que sua concha era uma proteção, mas o impedia de viver tamanhas experiências, começou a contar para os outros o que tinha acontecido com ele e como essa grande tempestade  o fez perceber que a vida ia além de sua concha de segurança. Ele não estava interessado em converter ninguém para tirar suas conchas, apenas queria viver dessa forma, que era arriscado, mas trazia uma liberdade imensa.

Começou pelos mais jovens, que começaram a tirar suas conchas para sentir as ondas que quebravam nos recifes; depois, por aqueles que não se encaixavam nessa vida nos corais. A revolução empurrou o Grande Conselho dos Moluscos a tomar uma decisão inédita: Aqueles que retirassem suas conchas deveriam ser expulsos do arrecife. Representavam um grande risco para o sistema e para os mais jovens, expondo-se ao perigo de não carregar as pesadas e protetoras conchas em suas costas.

E assim, o foi. Expulsaram o viajante e aqueles que se recusaram a colocar as conchas de volta, que foram lançados ao mar e arriscaram-se a viver sujeitos à natureza e a tudo o que ela traz consigo: vida, ondas, chuvas, tempestades, sol, novas paisagens, novas sensações, perigos e aquela maravilhosa descoberta que pode-se viver sem as conchas, que os tornavam uniformes.

Não há nenhuma promessa ou milagre por trás de nos tornamos nós mesmos.

Não ganharemos prêmios, não seremos reconhecidos pelas autoridades e comunidade como seres maravilhosos. Ao contrário, somos um risco para aqueles encouraçados que não conseguem imaginar o mundo sem as conchas. Então, o que vale? Vale por poder nadar no mar, vivências ondas, experimentar novas sensações e ao fim, reconhecer-se como um ser humano e não como uma concha, que continha algo dentro.

As grandes tempestades da vida nos alcançam, quando não conseguimos por nós mesmos deixar as conchas para trás e experimentar novos sabores e olhares para a vida. Então, como um turbilhão de vida, as tempestades arrancam à força nossas proteções, mexe com nosso estilo de viver, derruba nossas personalidades de proteção e nos lança num mar de novas experiências. Depende de nós, olhar para esta nova realidade e entender que podemos viver diferente ou sair loucamente desesperados por uma nova concha protetora. Não há respostas fáceis ou certas, apenas a grande aventura de dizer “SIM” para a vida!

Certamente não faltarão censores e portadores da “verdade” que tentaram nos conformar com a visão “correta” da vida. Vale mais escutar a intuição e o próprio coração, que sair a busca de soluções mágicas ou de mestres. O verdadeiro mestre mora dentro de nós, fora da concha.

Ao deixamos nossas conchas para trás precisamos olhar para nós mesmos com um novo olhar e procurar reconhecer que a experiência de viver é muito mais intensa e forte e

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Ao deixamos nossas conchas para trás precisamos olhar para nós mesmos com um novo olhar

que a concha não somos nós, mas por um tempo nos ajudou a viver e quando e quando estamos prontos, podemos deixa-la e mergulhar nas águas da vida com mais sabor.

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