Os Três Cérebros e a espiritualidade

A Neurociência nos ajuda hoje a entender um pouco mais desse mundo misterioso que ainda é o nosso cérebro. Imagine uma pirâmide com três níveis.

O primeiro e mais antigo é o cérebro visceral ou réptil, que controla as funções que asseguram a sobrevivência: defesa e ataque, fome e sede, segurança, repouso e proteção. Temos essa faixa de cérebro em comum com os répteis, exercendo exatamente as mesmas funções.

Vem depois o segundo andar da pirâmide, o cérebro Límbico ou emocional, que regula os sentimentos e emoções, os afetos, o gostar ou não gostar, o querer bem, as relações de amizade e os desafetos. Os mamíferos também têm em comum conosco essa faixa de cérebro, com as mesmas funções.

E só depois, no topo da pirâmide, muito tempo mais tarde na linha da evolução, surge a terceira parte, o Neocórtex Cerebral, o cérebro pensante, racional, artífice do pensamento simbólico, capaz de interpretar e estabelecer relações e tirar conclusões. É o cérebro lógico, analítico… exclusivo dos seres humanos.

Mas vai além dessa explicação a descoberta da neurociência, ao constatar a relação interna entre essas três camadas… e é isso que mais nos interessa nesta conversa. O Cérebro Visceral ou Réptil influencia o Cérebro Límbico ou Emocional e os dois juntos ou cada um por si, influenciam o Cérebro Racional. Mas, diz a ciência… e aqui nos assusta esse dado, por questionar nossos itinerários, o contrário não acontece, de cima para baixo: o cérebro racional não tem capacidade de influenciar-alterar-transformar o Cérebro Límbico nem o Visceral. Sabemos disso por experiência do dia a dia.

Imagine uma pessoa que tem medo de barata. Um dia ela resolve estudar a barata. Faz um curso superior e depois o Doutorado e Pós doutorado, defendendo uma tese brilhante e inovadora, sobre a Inofensibilidade da Barata. E, imaginem, quando termina de apresentar a sua tese, aprovada e aplaudida com mérito, ao sair da sala, uma barata cruza na sua frente! Mas é claro que agora a pessoa fica tranquila, pois já sabe que a barata não faz mal… não é verdade?! Todos sabemos que naturalmente a pessoa vai se assustar, gritar, pular… do mesmo jeito! Porque o medo de barata não está no seu Cérebro Racional… e a sua tese brilhante provando a Inofensibilidade da Barata, ficou apenas lá, no racional, sem gerar transformações, sem interferir no trauma de barata, que está lá escondido no Cérebro Límbico ou, até mais provavelmente, no Visceral.

Este mapa cerebral que a ciência nos dá, questiona nossos itinerários espirituais. Não basta encher o Racional de conhecimentos acerca de Deus… e ficar esperando que isso transforme pessoas! Ficamos com pessoas abarrotadas de saberes, de teorias e discursos bonitos… Mas nada muda nos níveis mais profundos. As sombras não são iluminadas e assumidas e transformadas, os traumas não são curados e as raízes, doentes, continuam adoecendo as flores e os frutos.

Talvez isso nos ajude a entender as velhas dicotomias nas espiritualidades, a separação entre a Fé e a Vida, o discurso e a prática, as teorias e a ação. Dizia o monge João Clímaco: não vos lanceis, pois em longos discursos, para que vosso espírito não se distraia na busca de palavras. E Tomás de Aquino testemunhava: quanto mais eu vou ao encontro de mim, mais descubro dentro de mim, um Outro que não sou eu, mas que no entanto é o fundamento do meu existir. Mergulhar dentro de si, percorrer os labirintos interiores, atravessar o deserto, habitado por feras e monstros e fantasmas… É a viagem imprescindível ao caminho espiritual.

Não existe espiritualidade profunda sem levar em conta os mistérios do inconsciente. Por isso que tantas vezes fugimos dessa viagem interior, contentando-nós em nada nas águas rasas da superficialidade dos artifícios da mente. Ficamos nas elaborações mentais, discorremos sobre teorias, tiramos conclusões bonitas sobre o texto bíblico, num jogo de palavras que satisfazem a mente mas não passam daí, porque nós assusta entrar em contato com nossos porões. Mas é aí que Deus nos habita e se deixa encontrar, justamente aí, no meio de nossos lixo tóxico de experiências traumáticas que nos acompanham nas sombras do nosso inconsciente, nos nossos porões.

O poeta Rumi dizia que a cicatriz é o lugar por onde entra a Luz. Não existe caminho espiritual sério e profundo que descarte o autoconhecimento. Esse é o fio condutor que vem da espiritualidade de Jesus e perpassa a tradição cristã, dos Padres do Deserto a Tereza de Ávila.

Esse foi o itinerário que Jesus testemunhou: Ele que era de condição divina esvaziou-se e assumiu a condição de criatura, assumiu a humanidade. E abraçou a cruz, como caminho para a Libertação, para a Vida Plena. As viagens mentais nos distraem e nos satisfazem, mas também nos impedem, tantas vezes, de fazer a experiência espiritual.

O doutor da Lei concordou com Jesus que o maior mandamento era amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E Jesus respondeu que ele não estava longe do Reino de Deus. É isso: o Reino de Deus é em primeiro lugar a presença de Deus em nós, no mais profundo de nosso coração. O Doutor da Lei estava na mente, entendeu… Já estava perto do coração, mas apenas isso. Estava na periferia do Reino de Deus. O racional nos deixa na periferia do Reino.

Quando os Reis Magos, na sua viagem em busca do Messias, guiados pela estrela, pararam em Jerusalém para consultar os Sábios e entendidos nas Escrituras, a estrela desapareceu. A estrela da intuição, a luz que vem do coração, é quem nos guia nessa aventura espiritual. Quando paramos para escutar a razão, suas teorias e conclusões, a estrela se apaga. Os sábios de Israel sabiam tudo a respeito do nascimento do Messias, o tempo e o lugar… E estavam bem perto… Mas isso não os mobilizou para irem ao seu encontro. Foi a estrela interior que fez aqueles Reis deixarem suas terras e partirem em busca de Deus. Os entendidos nas escrituras estavam perto do Reino de Deus… Mas não chegaram lá. A cabeça está perto do coração, mas nos detém na periferia.

Pe. Domingos CSh

Este artigo foi publicado em: Comunidade Shalom

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